Entrevista

“Quando o Direito encontra a vida: a atuação de Cintia Possas”

Especialista em Direito da Saúde e direitos coletivos, a advogada destaca os desafios enfrentados por pacientes com câncer e o papel da advocacia na garantia de tratamento digno.

No cenário jurídico e institucional brasileiro, onde a técnica precisa caminhar ao lado do compromisso social, algumas trajetórias se destacam não apenas pela experiência, mas pela capacidade de transformar conhecimento em impacto real na vida das pessoas. É nesse contexto que o Pauta Brasil apresenta aos seus leitores uma entrevista especial com a Dra. Cintia Possas — uma profissional cuja atuação ultrapassa os limites da advocacia tradicional e alcança áreas estratégicas da sociedade.

Advogada com mais de duas décadas de experiência, Dra. Cintia construiu uma carreira sólida no Direito do Trabalho, com forte atuação em direitos coletivos, responsabilidade civil, terceirização e no Terceiro Setor. Sua trajetória é marcada por uma atuação combativa e, ao mesmo tempo, sensível às demandas sociais, especialmente na defesa de grupos vulneráveis e na promoção da justiça social.

À frente de importantes iniciativas, ela é CEO da CASMEC Consultoria e Capacitação Profissional, onde desenvolve soluções estratégicas para organizações, além de fundadora e presidente do Instituto Possas Vencer, projeto que reforça seu compromisso com transformação social. No campo institucional, ocupa posições de destaque na Associação Brasileira de Advogados (ABA) e na OAB/RJ, liderando comissões e projetos voltados à valorização da advocacia e à defesa de direitos fundamentais.

Sua atuação na área da saúde merece atenção especial, com destaque para o trabalho na defesa dos direitos da pessoa com câncer, tema no qual alia conhecimento jurídico, sensibilidade humana e engajamento em políticas públicas. Palestrante ativa, também contribui para a formação e conscientização de profissionais em diversas áreas.

Nesta entrevista, o leitor terá a oportunidade de conhecer não apenas a profissional, mas também a visão, os desafios e os propósitos de uma advogada que faz do Direito um instrumento de transformação social.

Pauta Brasil: Dra. Cíntia, o que a motivou a atuar na defesa dos direitos da pessoa com câncer e como essa área transformou a sua forma de enxergar a advocacia?

Dra. Cintia Possas: A minha atuação não nasceu apenas de uma escolha profissional, ela nasceu da minha própria história.
Eu enfrentei o câncer ainda na infância. E viver isso tão cedo me colocou, desde muito cedo, no lugar de quem depende do cuidado, do acesso ao tratamento e de decisões que, muitas vezes, não estão nas nossas mãos, especialmente quando todo o tratamento ocorre pelo SUS.
Depois do câncer, a vida muda. E os muitos anos entre hospitais, consultas e exames me fizeram compreender que a saúde não pode ser tratada como algo distante do Direito. Diante disso, a advocacia faz cada vez mais sentido para mim, especialmente voltada aos direitos sociais e das pessoas com câncer, em especial aquelas que dependem do SUS, que eu defendo com convicção, porque foi graças a ele que eu tive acesso ao tratamento e estou aqui hoje.
Essa vivência me trouxe uma consciência muito clara: eu não estou aqui apenas para exercer uma profissão. Eu estou aqui para fazer mais. Para transformar a minha história em propósito e atuação concreta na vida de outras pessoas.
Vejo a advocacia como uma necessidade de atuação humanizada, além do conhecimento técnico, sendo instrumento de cuidado, de proteção e de garantia de dignidade, especialmente em um cenário em que ainda lutamos por efetividade de direitos, acesso ao tratamento e respeito à vida. Cada processo, para mim, tem rosto, tem história, tem urgência. E isso não se aprende nos livros, isso se vive.


Pauta Brasil: Quais são os principais desafios jurídicos enfrentados hoje pelos pacientes oncológicos e suas famílias?

Dra. Cintia Possas: Hoje, os desafios são, antes de tudo, de efetividade. Nós já avançamos em termos de legislação, mas ainda enfrentamos uma distância muito grande entre o direito que existe no papel e o direito que chega, de fato, ao paciente.
Um dos principais pontos é o tempo. No câncer, tempo é determinante. E ainda vemos atrasos no diagnóstico, no início do tratamento e no acesso a terapias adequadas, tanto no SUS quanto na saúde suplementar. A judicialização, muitas vezes, passa a ser o único caminho para garantir algo que já deveria ser assegurado administrativamente.
Também enfrentamos negativas recorrentes de planos de saúde, especialmente em relação a medicamentos de alto custo, tratamentos inovadores e terapias fora do rol da ANS, mesmo quando há indicação médica fundamentada.
Outro ponto muito sensível é a desigualdade de acesso. Quem depende exclusivamente do SUS, muitas vezes, enfrenta barreiras ainda maiores, o que evidencia a necessidade de fortalecimento das políticas públicas e da gestão em saúde.


Pauta Brasil: Em sua experiência profissional, quais direitos ainda são pouco conhecidos — e que todo paciente com câncer deveria saber?

Dra. Cintia Possas: Muitos pacientes desconhecem que têm direito ao início do tratamento no tempo adequado, à cobertura de tratamentos e medicamentos, ao acesso a benefícios previdenciários, à isenção de imposto de renda em determinadas situações, à proteção contra dispensa discriminatória, à prioridade na tramitação de processos e ao acesso a políticas públicas de saúde.


Pauta Brasil: A advocacia na área da saúde exige não apenas técnica, mas sensibilidade. Como a senhora equilibra firmeza jurídica com acolhimento humano?

Dra. Cintia Possas: Quem chega até nós precisa ser ouvido com respeito e cuidado, porque está em um momento de fragilidade. Mas, no processo, sensibilidade não é meio de prova. O que garante o direito é a técnica, a estratégia e o conhecimento jurídico bem aplicado.
Por isso, não dá para atuar nessa área sem preparo. Uma atuação sem base técnica pode gerar prejuízo real ao paciente, inclusive com a perda de tempo em situações em que o tempo é determinante.
Então, o equilíbrio está nisso: escuta qualificada no atendimento e atuação firme, técnica e responsável no processo. Porque, no final, o que está em jogo não é só uma tese jurídica — é o acesso ao tratamento e à própria vida.


Pauta Brasil: Como a Comissão Nacional de Defesa dos Direitos da Pessoa com Câncer da ABA pode contribuir para fortalecer a atuação dos advogados que desejam trabalhar nessa área?

Dra. Cintia Possas: A Comissão tem um papel fundamental de formação, articulação e fortalecimento institucional.
Nós buscamos capacitar advogados, promover debates qualificados, construir conteúdos técnicos e, principalmente, conectar profissionais de diferentes áreas para uma atuação interdisciplinar.
Não se trata apenas de atuar em processos, mas de influenciar políticas públicas, ampliar o acesso à informação e estruturar uma rede de apoio jurídica mais preparada.


Pauta Brasil: O que significa, para a senhora, presidir essa Comissão dentro da ABA? Como tem sido essa experiência institucional?

Dra. Cintia Possas: Presidir a Comissão Nacional de Defesa dos Direitos da Pessoa com Câncer da ABA exige responsabilidade, articulação e compromisso permanente com a construção de soluções que ultrapassem o campo teórico e gerem impacto concreto na vida das pessoas.
A ABA vem se consolidando e ganhando cada vez mais destaque no cenário jurídico, especialmente por sua atuação voltada à qualificação, valorização e reconhecimento da advocacia. Nesse contexto, a Comissão assume um papel estratégico, por tratar de uma pauta de alta relevância social, que demanda atuação técnica, sensível e comprometida.
A experiência tem sido marcada pela construção coletiva, pela integração com diferentes áreas do conhecimento e pelo diálogo institucional com diversos atores, sempre com foco no aprimoramento da atuação jurídica e no fortalecimento de uma advocacia comprometida com a efetividade dos direitos.
Mais do que ocupar uma posição, trata-se de liderar um movimento que busca transformar direitos já reconhecidos em realidade, ampliando o acesso, a informação e a proteção às pessoas com câncer.


Pauta Brasil: De que forma a ABA contribui para o seu crescimento e reconhecimento profissional nesse nicho tão sensível e estratégico?

Dra. Cintia Possas: A ABA tem um papel importante ao abrir espaços institucionais de atuação, de fala e de construção. Ela permite que o trabalho ganhe alcance, que as pautas sejam debatidas em nível nacional e que haja uma troca qualificada entre profissionais.
Esse ambiente fortalece não apenas o reconhecimento, mas, principalmente, a consistência da atuação.


Pauta Brasil: Que mensagem a senhora deixaria para os advogados que desejam ingressar ou se especializar na defesa dos direitos da pessoa com câncer?

Dra. Cintia Possas: Quem decide atuar na defesa dos direitos da pessoa com câncer precisa entender que está lidando com tempo, com acesso ao tratamento e, muitas vezes, com a própria vida do paciente. Isso exige preparo técnico consistente, atualização constante e responsabilidade real sobre cada atuação.
Não basta boa intenção. Sensibilidade, sem conhecimento, não garante direito — e pode gerar prejuízo.
É uma área que exige estudo, estratégia e comprometimento com a efetividade. Mas, ao mesmo tempo, é uma das atuações mais transformadoras dentro do Direito.
Porque aqui, o resultado do seu trabalho não se mede apenas em decisões judiciais. Ele se reflete diretamente na vida de alguém.
E isso exige mais do que vontade. Exige posicionamento, responsabilidade e propósito.

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