Polícia

OPERAÇÃO INVESTIGA SUSPEITA DE INFILTRAÇÃO DO PCC EM ÓRGÃOS PÚBLICOS

Ação do Ministério Público de São Paulo mira ex-estagiário, investigador da Polícia Civil e ex-policial suspeitos de repassar informações sigilosas, praticar extorsões e colaborar com integrantes da facção criminosa.

Uma operação deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo nesta terça-feira (9) trouxe à tona novas suspeitas de infiltração do crime organizado em estruturas do Estado. A investigação apura a atuação de um ex-estagiário do próprio Ministério Público, de um chefe de investigadores da Polícia Civil e de um ex-policial civil que teriam utilizado cargos, funções e acessos privilegiados para favorecer integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), os investigados são suspeitos de participação em esquemas de obtenção e repasse de informações sigilosas, extorsão de alvos de investigações e possível colaboração com criminosos envolvidos em um plano para assassinar um promotor de Justiça que atua no combate ao crime organizado.

Investigações apontam uso indevido de informações sigilosas

As apurações indicam que o ex-estagiário, atualmente advogado, teria se aproveitado do acesso a bancos de dados e sistemas internos do Ministério Público enquanto atuava em uma promotoria criminal da região de Campinas.

De acordo com os investigadores, ele teria identificado criminosos com elevado poder econômico e utilizado informações privilegiadas para exigir pagamentos em troca de suposta proteção contra investigações em andamento.

O trabalho investigativo também aponta que ele não teria atuado sozinho. O esquema contaria com a colaboração de outros agentes públicos, incluindo um policial penal e um ex-policial civil que, segundo o Gaeco, teriam contribuído para a obtenção e utilização das informações.

As autoridades afirmam que ainda buscam esclarecer se algum dos investigados efetivamente realizou pagamentos em razão das ameaças ou ofertas de proteção. A operação tem justamente o objetivo de reunir novos elementos que permitam dimensionar o alcance das atividades investigadas.

Além das prisões temporárias, foram cumpridos mandados de busca e apreensão em diferentes endereços nas cidades de Campinas e Cardoso, no interior paulista.

Suposto plano contra promotor amplia gravidade do caso

Outro ponto considerado sensível pelos investigadores envolve a descoberta de possíveis conexões entre os suspeitos e integrantes de uma organização criminosa que estaria planejando um atentado contra o promotor do Gaeco Amauri Silveira Filho.

Segundo o Ministério Público, as apurações revelaram que um dos acusados de coordenar a execução do plano criminoso teria mantido contato com o então chefe de investigadores da Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise) de Campinas pouco antes da realização da Operação Pronta Resposta.

Durante a análise de materiais apreendidos, foram encontrados vídeos que registrariam encontros entre investigados às vésperas da ação policial que acabou frustrando o suposto atentado contra o membro do Ministério Público.

A partir desses elementos, o Gaeco busca esclarecer se houve vazamento de informações estratégicas sobre investigações em andamento ou sobre operações planejadas pelas autoridades.

O caso ganhou ainda mais repercussão por envolver profissionais que ocupavam funções diretamente relacionadas ao sistema de segurança pública e ao combate ao crime organizado, o que aumenta as preocupações sobre eventuais mecanismos de infiltração em órgãos responsáveis pela aplicação da lei.

Operação reforça debate sobre controle interno e integridade institucional

A chamada Operação Infiltrados surgiu como desdobramento de duas grandes ações realizadas anteriormente: a Operação Pronta Resposta, que investigava um plano de atentado contra o promotor do Gaeco, e a Operação Off White, voltada ao combate de um esquema de lavagem de dinheiro ligado a traficantes apontados entre os mais procurados do país.

Durante as investigações, os promotores identificaram mensagens e registros que indicariam a existência de cobranças financeiras feitas contra pessoas investigadas. Em um dos episódios analisados, foi localizada uma exigência de pagamento de R$ 500 mil para que determinadas informações não fossem repassadas ao Ministério Público.

As apurações levaram os investigadores até um profissional que, à época dos fatos, trabalhava em uma promotoria criminal e posteriormente passou a atuar em um escritório de advocacia da região de Campinas. O local também foi alvo de buscas durante a operação.

Em nota oficial, o Ministério Público destacou que “todos os fatos estão sob apuração no Gaeco e o apoio das Polícias Militar, Civil e Penal demonstra que as instituições estão trabalhando em conjunto para a depuração de seus quadros, garantindo que a sociedade sempre tenha à disposição um serviço público eficiente, contínuo e transparente”.

A participação das corregedorias das Polícias Civil e Penal, além do acompanhamento da Comissão de Prerrogativas da OAB nas diligências realizadas em escritório de advocacia, demonstra a preocupação das instituições em assegurar a legalidade das investigações e preservar direitos fundamentais durante a apuração dos fatos.

O avanço das investigações deverá esclarecer o alcance das condutas atribuídas aos suspeitos e contribuir para fortalecer mecanismos de controle interno destinados a proteger a integridade das instituições públicas brasileiras.

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