ESDRAS DANTAS DE SOUZA: O POBRE NÃO É INIMIGO DA EMPRESA. É PARTE ESSENCIAL DA ECONOMIA
Mais renda amplia o consumo, movimenta empresas e fortalece a economia.

Melhorar a renda de quem tem menos não é apenas uma questão social. Quando milhões de brasileiros conquistam poder de compra, o dinheiro chega ao supermercado, à farmácia, ao comércio, aos serviços e às empresas — e pode ajudar a movimentar toda a economia.
Há uma pergunta que o Brasil precisa fazer com mais serenidade e menos preconceito:
Uma economia pode prosperar de forma duradoura se milhões de seus consumidores não tiverem dinheiro suficiente para consumir?
A resposta exige que abandonemos, por alguns minutos, as disputas ideológicas.
Não quero discutir direita ou esquerda. Tampouco pretendo colocar empresários e trabalhadores em lados opostos.
Quero falar de economia.
E de uma realidade muito simples: quem produz precisa de quem compra.
Uma indústria pode fabricar o melhor produto. Um supermercado pode encher suas prateleiras. Um pequeno comerciante pode abrir suas portas todas as manhãs. Um empreendedor pode investir suas economias em um novo negócio.
Mas, no fim da cadeia, alguém precisa comprar.
E esse alguém é o consumidor.
Por isso, talvez precisemos mudar uma maneira de enxergar a pobreza.
A pessoa de baixa renda não é apenas alguém que necessita de assistência do Estado. Ela trabalha, compra alimentos, paga aluguel, utiliza transporte, compra medicamentos, contrata serviços, paga impostos, empreende e participa diariamente da vida econômica.
O pobre também é mercado.
E quando sua renda aumenta de maneira sustentável, os benefícios podem ultrapassar a porta de sua casa.
O Brasil da renda ainda é profundamente desigual
Os números ajudam a compreender a dimensão dessa discussão.
Segundo a PNAD Contínua do IBGE, o rendimento médio mensal real de todas as fontes das pessoas que tinham rendimento chegou a R$ 3.367 em 2025, maior valor da série histórica iniciada em 2012. O rendimento domiciliar per capita nominal do país foi de R$ 2.316 em 2025.
Isso não significa, evidentemente, que cada brasileiro receba esse valor. Médias nacionais escondem diferenças importantes entre pessoas, famílias e regiões.
O próprio IBGE calculou em 0,511 o índice de Gini do rendimento domiciliar per capita em 2025. Quanto mais próximo de 1, maior a concentração de renda; quanto mais próximo de zero, maior a igualdade.
Há, portanto, uma questão social evidente.
Mas existe também uma questão econômica.
Milhões de brasileiros possuem necessidades de consumo que não desaparecem simplesmente porque sua renda é pequena.
A comida precisa chegar à mesa. O aluguel precisa ser pago. A criança precisa de roupa. A família precisa de transporte. Quando alguém adoece, muitas vezes é necessário comprar medicamento.
É justamente aí que aparece um conceito importante da economia: a propensão marginal a consumir.
Quem tem menos tende a gastar parcela maior da renda
Em termos simples, a propensão marginal a consumir procura mostrar quanto de uma renda adicional tende a se transformar em consumo.
Famílias de menor renda, por terem muitas necessidades básicas ainda por atender, tendem a consumir uma parcela elevada dos recursos disponíveis. Estudos do Ipea sobre transferências sociais já identificaram essa característica: quanto mais focalizado o recurso nas famílias pobres, maior tende a ser seu efeito sobre o consumo, justamente porque esses grupos apresentam maior propensão a consumir.
Os orçamentos familiares brasileiros tornam isso bastante concreto.
Na Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018 — a referência estrutural disponível do IBGE para esse tipo de comparação detalhada — as famílias que recebiam até dois salários mínimos destinavam 92,6% de suas despesas totais ao consumo. Nas famílias situadas na faixa superior a 25 salários mínimos, essa participação era de 66,3%.
Há outra diferença reveladora.
Entre as famílias de menor rendimento, alimentação e habitação consumiam, juntas, 61,2% das despesas totais: 22% com alimentação e 39,2% com habitação. Entre as famílias de renda mais elevada pesquisadas, esses dois itens representavam 30,2%.
Isso nos ajuda a compreender algo fundamental:
quando aumenta a renda de uma família pobre, uma parcela importante desse dinheiro tende a retornar rapidamente à economia.
O caminho do dinheiro: da renda da família à economia
Imaginemos uma trabalhadora que consiga aumentar sua renda mensal.
Ela não guarda necessariamente todo esse dinheiro.
Pode comprar alimentos que antes faltavam em casa.
O dinheiro chega ao supermercado.
Mas a história não termina ali.
O supermercado precisa repor o produto vendido e compra do distribuidor.
O distribuidor compra da indústria.
A indústria adquire matérias-primas, paga energia, transporte, funcionários e fornecedores.
O supermercado também paga salários, aluguel, impostos, serviços de limpeza, manutenção, tecnologia e segurança.
O funcionário que recebe seu salário, por sua vez, também vai ao comércio.
E o dinheiro continua circulando.
É claro que a economia real é muito mais complexa: parte da renda é poupada, outra parcela paga impostos, outra pode financiar importações ou quitar dívidas. Portanto, não existe um multiplicador infinito.
Mas o princípio permanece: renda gera capacidade de consumo, e consumo representa demanda para quem produz e vende.
É por isso que a pobreza não deveria preocupar apenas quem olha para ela sob a perspectiva da justiça social.
Deveria preocupar também quem olha para uma planilha de vendas.
Empresa precisa de consumidor — e consumidor precisa de empresa
Existe, entretanto, outro lado dessa equação que não pode ser ignorado.
Não adianta aumentar indefinidamente a demanda se a economia não consegue aumentar sua capacidade de produzir.
Quando a procura cresce persistentemente acima da oferta disponível, podem surgir pressões sobre os preços. E inflação elevada prejudica justamente o poder de compra que se pretendia ampliar.
Empresas também precisam ter condições de prosperar.
Precisam de segurança jurídica.
Precisam de crédito em condições viáveis.
Precisam de infraestrutura.
Precisam de trabalhadores qualificados.
Precisam de produtividade.
Precisam de ambiente favorável ao investimento.
E, evidentemente, precisam obter lucro. Sem rentabilidade, o empresário não investe, não amplia a produção e dificilmente cria novos empregos de maneira sustentável.
A OCDE tem chamado atenção exatamente para esse outro lado da equação brasileira. Em sua análise de 2026, a organização observa que o Brasil continua enfrentando desafios de investimento e produtividade e aponta educação, qualificação, infraestrutura, concorrência e redução de barreiras regulatórias entre os caminhos para ampliar o crescimento de longo prazo.
Portanto, defender melhores condições de vida para os trabalhadores e defender empresas fortes não são necessariamente projetos adversários.
Podem ser partes do mesmo projeto de desenvolvimento.
Transferir renda, aumentar renda e aumentar poder de compra não são a mesma coisa
Também precisamos separar conceitos que frequentemente aparecem misturados no debate público.
Transferência de renda é o recurso transferido às famílias, normalmente pelo Estado, para garantir proteção social, reduzir vulnerabilidades ou atender a objetivos definidos por políticas públicas.
Ela pode ser decisiva para uma família em situação de pobreza, mas não é sinônimo de desenvolvimento econômico de longo prazo.
Crescimento sustentável da renda é outra coisa. Depende de fatores como emprego, qualificação, produtividade, empreendedorismo, investimento, crescimento das empresas e capacidade da economia de gerar valor.
E há ainda o poder de compra.
Uma pessoa pode receber um aumento nominal de salário e, ainda assim, não ficar efetivamente mais rica se os preços subirem na mesma proporção ou mais.
É a renda real — aquilo que o dinheiro efetivamente consegue comprar — que modifica o padrão de vida.
Por isso, qualquer projeto sério de prosperidade precisa combinar crescimento da renda, produtividade e estabilidade do poder de compra.
Os dados recentes mostram a força dessa relação
O comportamento recente da economia brasileira oferece um exemplo interessante.
No primeiro trimestre de 2026, o consumo das famílias cresceu 1% em relação ao trimestre anterior. Segundo o Banco Central, esse desempenho foi favorecido pela expansão da renda disponível das famílias, impulsionada tanto pelo aumento da massa de rendimentos do trabalho quanto por benefícios sociais e outros fatores.
A OCDE, em sua avaliação publicada em junho de 2026, também apontou que o consumo privado brasileiro vinha permanecendo resiliente em meio às condições favoráveis do mercado de trabalho e à elevação da renda disponível. Ao mesmo tempo, advertiu que juros elevados pesavam sobre o investimento e que elevar a produtividade continua sendo fundamental para o crescimento de longo prazo.
Esse equilíbrio é importante.
Consumo ajuda a movimentar a economia. Mas produtividade, investimento e estabilidade são necessários para sustentá-la.
O que realmente ajuda a aumentar a renda de forma sustentável?
Não existe uma única resposta.
Educação de qualidade ajuda.
Qualificação profissional ajuda.
Emprego formal ajuda.
Empreendedorismo ajuda.
Crédito responsável ajuda.
Infraestrutura ajuda.
Segurança jurídica ajuda.
Empresas competitivas ajudam.
Ambiente econômico estável ajuda.
Políticas sociais bem focalizadas podem ajudar famílias a atravessar períodos de vulnerabilidade.
E uma economia capaz de aumentar continuamente sua produtividade cria melhores condições para que salários reais cresçam sem depender apenas da expansão artificial do consumo.
É exatamente por isso que precisamos abandonar a velha ideia de que o debate econômico precisa escolher entre trabalhador e empresário.
O Brasil necessita dos dois.
O pobre não é apenas beneficiário. É protagonista econômico
Talvez aqui esteja a mudança de olhar mais importante.
Quando falamos da população de baixa renda, frequentemente usamos palavras como assistência, benefício, carência e vulnerabilidade.
Tudo isso pode fazer parte da realidade.
Mas existe outra dimensão.
Esse brasileiro é também trabalhador.
É consumidor.
É contribuinte.
Muitas vezes é microempreendedor.
Pode ser o homem que vende alimentos na esquina, a mulher que abriu um pequeno salão, o motorista que trabalha por conta própria, a costureira que atende em casa, o trabalhador do supermercado ou a jovem que está começando sua carreira.
Ele não está fora da economia.
Ele é a economia.
Assim como também o são o empresário que investe, o comerciante que assume riscos, o produtor rural, o industrial, o profissional liberal e quem cria empregos.
A economia funciona justamente porque essas pessoas se relacionam.
Prosperidade não precisa ser um jogo em que alguém só ganha se outro perder
Precisamos superar uma ideia que ainda contamina parte do debate brasileiro: a de que, para um lado prosperar, necessariamente o outro precisa perder.
Uma empresa saudável precisa de clientes.
Um trabalhador precisa de empresas e organizações capazes de gerar oportunidades.
O empreendedor precisa de pessoas com dinheiro para comprar aquilo que ele oferece.
E o consumidor precisa de empresas capazes de produzir bons produtos e serviços por preços que possa pagar.
Existe, portanto, uma relação de interdependência.
É por isso que acredito que combater a pobreza também pode ser uma agenda de desenvolvimento econômico.
Não se trata de transformar empresário em instituição de caridade.
Também não se trata de imaginar que distribuir dinheiro, isoladamente, resolverá os problemas estruturais do país.
Trata-se de compreender algo mais profundo:
quanto maior for o número de brasileiros capazes de trabalhar, produzir, empreender, consumir, poupar e investir, maior poderá ser o próprio mercado brasileiro.
Talvez devêssemos começar a olhar para a ascensão econômica dos mais pobres não como uma ameaça à prosperidade de quem já conseguiu crescer, mas como a possibilidade de ampliar a prosperidade de toda a sociedade.
Porque uma empresa precisa de mercado.
E mercado não é uma abstração econômica.
Mercado são pessoas.
Pessoas com necessidades, sonhos e, sobretudo, capacidade de escolha.
A grande questão brasileira, portanto, não deveria ser como fazer pobres e ricos disputarem entre si.
Deveria ser outra:
como fazer com que milhões de brasileiros que ainda vivem à margem da prosperidade tenham condições de participar plenamente dela — produzindo, trabalhando, empreendendo e consumindo?
Quando encontrarmos caminhos sustentáveis para isso, talvez descubramos que ajudar o brasileiro de baixa renda a crescer não significa retirar prosperidade de alguém.
Pode significar aumentar o tamanho da mesa para todos.
Esdras Dantas de Souza
Advogado, professor e presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA)



