Esdras Dantas

ESDRAS DANTAS DE SOUZA: “A ADVOCACIA BRASILEIRA PRECISA VOLTAR A CUIDAR DOS ADVOGADOS”

Em meio às transformações da profissão, cresce a necessidade de acolhimento, valorização humana e fortalecimento institucional daqueles que sustentam diariamente a Justiça brasileira.

Durante muitos anos, a advocacia brasileira construiu uma história marcada por grandes lutas institucionais, defesa das liberdades públicas e proteção do Estado Democrático de Direito. O advogado sempre ocupou um espaço de relevância na sociedade, não apenas como profissional técnico, mas como voz ativa da cidadania, da Justiça e da Constituição.

Mas talvez tenha chegado o momento de fazermos uma reflexão necessária, sincera e profundamente humana: quem tem cuidado dos advogados?

Nos últimos anos, a advocacia mudou. O mercado mudou. A velocidade da informação mudou. A tecnologia alterou comportamentos, relações profissionais e formas de atuação. Ao mesmo tempo, cresceu a competitividade, aumentaram as cobranças, intensificaram-se as dificuldades financeiras e emocionais, e muitos profissionais passaram a enfrentar uma silenciosa sensação de invisibilidade.

Há milhares de advogados extremamente preparados, estudiosos e comprometidos, mas que não conseguem espaço para mostrar seu trabalho, sua capacidade e seu propósito profissional. Muitos exercem a advocacia de forma solitária, sem apoio, sem conexões, sem orientação e, em alguns casos, sem esperança.

E isso deveria preocupar toda a advocacia brasileira.

Uma profissão não se fortalece apenas pela defesa de suas prerrogativas — embora elas sejam indispensáveis. Também não se fortalece apenas pela realização de grandes congressos, solenidades ou discursos institucionais. A advocacia se fortalece quando o advogado se sente valorizado, respeitado, acolhido e lembrado.

Talvez uma das maiores crises da advocacia contemporânea não seja jurídica. Seja humana.

Muitos profissionais estão cansados. Outros perderam o entusiasmo. Alguns já não acreditam mais que possam crescer na profissão. Há jovens advogados inseguros diante do futuro e profissionais experientes tentando reencontrar sentido na caminhada.

Por isso, a advocacia brasileira precisa voltar a cuidar dos advogados.

Cuidar significa ouvir.

Significa criar ambientes de acolhimento, oportunidades reais de crescimento, espaços de visibilidade, incentivo ao conhecimento, fortalecimento emocional e aproximação entre colegas. Significa compreender que, por trás de cada carteira profissional, existe uma pessoa carregando sonhos, responsabilidades, medos e expectativas.

O advogado não pode ser tratado apenas como número, estatística ou contribuinte institucional. Ele precisa ser visto como ser humano.

Precisamos recuperar a dimensão humana da advocacia.

É necessário construir uma cultura mais colaborativa e menos destrutiva. Mais inspiradora e menos hostil. Uma advocacia onde o sucesso de um colega não seja visto como ameaça, mas como estímulo. Onde existam pontes, e não muros.

A tecnologia continuará avançando. A inteligência artificial continuará transformando a profissão. Novos modelos de negócio continuarão surgindo. Tudo isso é inevitável. Mas nenhuma inovação será capaz de substituir aquilo que torna a advocacia verdadeiramente essencial: a capacidade humana de compreender dores, interpretar conflitos e lutar por dignidade.

E, para que a advocacia continue forte, os advogados também precisam permanecer fortes.

Fortes tecnicamente.
Fortes emocionalmente.
Fortes institucionalmente.
Fortes em propósito.

Talvez esteja na hora de a advocacia brasileira olhar menos para disputas internas e mais para aqueles profissionais que estão tentando sobreviver diariamente em um mercado cada vez mais difícil e competitivo.

Talvez esteja na hora de voltarmos a incentivar, orientar, conectar e impulsionar colegas de profissão.

Porque quando um advogado cresce com dignidade, toda a advocacia cresce junto.

E quando a advocacia aprende novamente a cuidar dos advogados, ela também fortalece a Justiça, a cidadania e a própria democracia.

 

Autor

Esdras Dantas de Souza é advogado, professor, colunista do Pauta Brasil, especialista em Direito Público Interno e presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA). Foi advogado público, presidente da OAB DF, conselheiro federal, diretor da OAB Nacional, Juiz titular do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal e conselheiro do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). É autor de inumeros artigos jurídicos e de temas de interesse da sociedde.

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