Esdras Dantas revela: o dia em que a OAB foi invadida no Brasil
Um episódio histórico em Brasília revelou até onde o poder pode ir — e até onde a advocacia resiste

Uma madrugada que entrou para a história
Na madrugada de 24 de outubro de 1983, Brasília assistiu a um dos episódios mais graves já vividos pela advocacia brasileira: a invasão da sede da OAB no Distrito Federal.
Não se tratava de um prédio qualquer.
Era o símbolo institucional da defesa da liberdade, do direito e da democracia.
E foi exatamente ali que o Estado decidiu entrar — à força.
O contexto: tensão política e resistência jurídica
A capital federal vivia sob o regime das chamadas “medidas de emergência”.
Mesmo assim, a OAB realizou o I Encontro dos Advogados do Distrito Federal.
A decisão foi firme: não havia impedimento legal.
Havia, sim, um dever institucional.
A liderança que não se curvou
Na abertura, o então presidente Maurício Corrêa deixou claro:
- O encontro não era confronto
- Era exercício legítimo da advocacia
- Era compromisso com a democracia
Mais de 500 advogados aplaudiram de pé.
A invasão: o limite foi ultrapassado
Na madrugada seguinte, agentes da Polícia Federal invadiram a sede.
Levaram documentos.
Levaram registros.
Levaram até o porteiro.
Nada foi encontrado que justificasse a operação.
Mas o gesto falava por si.
O momento que marcou — e que eu testemunhei
No dia seguinte, durante coletiva de imprensa, a situação se agravou.
A sede foi cercada.
A interdição foi determinada.
Foi nesse momento que presenciei, pessoalmente, a leitura do termo de interdição da sede da OAB/DF.
Ali, diante de autoridades, advogados e da imprensa, vi de perto algo que nunca imaginei testemunhar:
A tentativa de silenciar institucionalmente a advocacia brasileira.
A reação do presidente Maurício Corrêa foi imediata e firme:
- “Recuso-me a assinar.”
Não era apenas uma recusa.
Era um ato de coragem.
Era a advocacia dizendo: há limites.
O dia em que advogados cantaram sob pressão
Impedidos de entrar e até de sair do prédio…
Advogados deram as mãos.
E cantaram o Hino Nacional.
Debaixo de chuva.
Com emoção.
Com lágrimas.
Eu estava ali.
E posso afirmar:
não era apenas um ato simbólico.
Era um grito silencioso de resistência.
A repercussão e o recuo
O país reagiu.
Juristas, parlamentares e a imprensa se manifestaram.
A pressão foi tamanha que, horas depois, o episódio passou a ser tratado como “equívoco”.
A interdição foi revogada.
A advocacia respondeu à altura
A OAB mobilizou o país.
Sessões de desagravo foram convocadas.
A classe se uniu.
A resposta foi firme.
Posicionamento: por que isso importa hoje
Esse episódio não pode ser tratado como curiosidade histórica.
Ele é um alerta.
- A democracia precisa ser defendida
- Instituições podem ser pressionadas
- A advocacia é linha de defesa — não espectadora
E digo isso não como quem leu…
mas como quem viveu.
Conclusão: memória, responsabilidade e legado
A reabertura da sede da OAB foi marcada por emoção.
Mas o maior legado daquele episódio é outro:
A certeza de que a advocacia brasileira não se curva.
E sempre que necessário, estará pronta para lembrar ao poder quais são os seus limites.
Esdras Dantas de Souza
Advogado, Professor, foi presidente da OAB DF, conselheiro federal e diretor da OAB NACIONAL e atualmente é o Presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA)
Testemunha presencial dos acontecimentos narrados