24ª Comnvenção Anual da ABA

Elaine Molinaro leva à 24ª Convenção da ABA reflexão sobre alta performance, gênero e adoecimento na advocacia

Com mais de três décadas de advocacia, professora, palestrante e diretora-geral da ABA no Rio de Janeiro abordou a dupla jornada e os fatores psicossociais de gênero que desafiam especialmente as mulheres no exercício profissional

Há profissionais que constroem sua autoridade pelo conhecimento. Outros, pela experiência. Alguns, pela capacidade de liderar e abrir caminhos para aqueles que estão ao seu redor. Elaine Molinaro reúne essas dimensões em uma trajetória de mais de três décadas dedicada à advocacia, ao ensino e à vida institucional.

Na última quinta-feira, 20 de agosto, na 24ª Convenção Anual da Associação Brasileira de Advogados – ABA, realizada no Windsor Barra Hotel, no Rio de Janeiro, Elaine ocupou a tribuna para tratar de um tema que ultrapassa os limites do Direito e alcança uma realidade silenciosamente vivida por milhares de profissionais: “Dupla Jornada, Alta Performance e Adoecimento: o Fator Psicossocial de Gênero na Advocacia”.

A escolha do assunto colocou no centro do debate uma contradição do mundo profissional contemporâneo. Nunca se falou tanto em produtividade, desempenho, resultados e alta performance. Mas nem sempre se pergunta qual é o custo humano de permanecer continuamente tentando corresponder a todas essas expectativas.

Para muitas mulheres advogadas, a questão ganha contornos ainda mais complexos quando às exigências profissionais se somam responsabilidades familiares, cuidados com filhos ou familiares, administração da casa, pressões sociais e a necessidade permanente de demonstrar competência em ambientes historicamente marcados por desigualdades de gênero.

Quando a alta performance cobra seu preço

A advocacia é uma profissão naturalmente exigente.

Prazos, audiências, clientes, processos, estudos, atualização permanente, gestão do escritório, relacionamento profissional e necessidade de acompanhar mudanças legislativas e jurisprudenciais fazem parte da rotina.

Para muitas mulheres, porém, o expediente profissional não encerra a jornada.

É justamente nesse ponto que a reflexão proposta por Elaine Molinaro ganha relevância. Discutir a dupla jornada não significa diminuir a capacidade feminina de alcançar posições de liderança ou de exercer uma advocacia de alto desempenho. Significa reconhecer que o sucesso profissional não pode exigir como preço permanente o esgotamento físico e emocional.

Ao levar essa discussão para uma Convenção Nacional de advogados, a ABA também amplia o significado da formação profissional. Preparar um advogado não é apenas transmitir conhecimento jurídico. É ajudá-lo a compreender o ambiente em que trabalha, as transformações da profissão e as condições humanas necessárias para construir uma carreira sustentável.

Uma voz construída pela experiência

Elaine não fala sobre advocacia apenas a partir dos livros.

Sua autoridade nasce também de uma longa trajetória profissional e institucional.

Advogada há mais de três décadas, professora e palestrante, ela exerce atualmente a Diretoria-Geral da ABA no Estado do Rio de Janeiro e desenvolve intensa atividade acadêmica e institucional. Também preside a Comissão Nacional de Direito e Processo do Trabalho da ABA e a Comissão de Jurisprudência e Precedentes Trabalhistas da OAB/RJ, além de integrar o Instituto dos Advogados Brasileiros.

Sua atuação profissional está particularmente ligada ao Direito e Processo do Trabalho, à formação jurídica, ao sistema de precedentes e, mais recentemente, a estudos e atividades relacionados à equidade de gênero e aos direitos das mulheres.

É uma trajetória que une prática, estudo, ensino e representação institucional.

Mas existe outro aspecto de sua liderança que números, cargos e currículos dificilmente conseguem traduzir: a capacidade de servir.

Na ABA, Elaine tornou-se uma liderança presente. Daquelas que não se limitam a ocupar um cargo, mas ajudam a construir projetos, aproximam pessoas, estimulam colegas e transformam participação institucional em oportunidade para outros profissionais.

Mulheres que chegaram longe — e o que encontraram pelo caminho

A presença feminina transformou profundamente a advocacia brasileira.

Mulheres ocupam escritórios, tribunais, universidades, instituições jurídicas e posições de liderança que durante décadas lhes foram praticamente inacessíveis. Essa conquista merece ser celebrada.

Mas celebrar avanços não impede reconhecer obstáculos.

A mulher que conquista espaço profissional não deixa automaticamente de enfrentar cobranças relacionadas à maternidade, à família, ao cuidado e a expectativas sociais construídas ao longo de gerações.

É justamente nessa interseção entre vida profissional e vida pessoal que os fatores psicossociais de gênero merecem atenção.

A discussão proposta por Elaine convida a advocacia a olhar não apenas para quantas mulheres chegaram, mas também para em quais condições elas estão permanecendo, crescendo e liderando.

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes para instituições que pretendem construir uma advocacia verdadeiramente preparada para o futuro.

Reconhecimento também é missão da ABA

A presença de Elaine Molinaro na programação da 24ª Convenção representa ainda um princípio que a Associação Brasileira de Advogados procura colocar em prática: valorizar o conhecimento existente dentro da própria instituição.

A missão da ABA é promover o crescimento e o reconhecimento profissional de seus associados.

Crescimento significa conhecimento, atualização, relacionamentos e oportunidades.

Reconhecimento significa também criar espaços para que advogados competentes sejam vistos, ouvidos e conhecidos pelo trabalho que desenvolveram ao longo de suas carreiras.

Quando uma associada sobe ao palco de uma Convenção Nacional para compartilhar sua experiência, ela transmite conhecimento. Mas acontece algo igualmente importante: sua trajetória profissional torna-se conhecida por colegas de diferentes regiões do País.

Conhecimento compartilhado gera autoridade. Autoridade reconhecida gera novas oportunidades.

Essa é uma das formas pelas quais uma entidade de advogados pode efetivamente contribuir para o desenvolvimento de seus membros.

Elaine Molinaro: liderança que também cuida

Há uma coincidência especialmente significativa entre a palestrante e o assunto escolhido.

Uma mulher com mais de trinta anos de advocacia, professora, palestrante e dirigente de entidades jurídicas decidiu utilizar seu espaço em uma Convenção Nacional não apenas para falar de sucesso, mas para discutir o preço que eventualmente se paga por ele.

Não apenas para falar de alta performance, mas para perguntar se ela é sustentável.

Não apenas para celebrar o avanço profissional das mulheres, mas para lembrar que nenhuma conquista deve exigir o adoecimento como contrapartida.

Essa escolha revela uma concepção de liderança.

Liderar também é perceber aquilo que nem sempre aparece.

É olhar para o colega além do currículo.

É compreender que por trás de cada profissional existem responsabilidades, limites, sonhos, dificuldades e uma história que não cabe em um cartão de visitas.

“Elaine representa muito do que queremos construir na ABA”

Para o presidente da Associação Brasileira de Advogados, Esdras Dantas, a participação de Elaine na Convenção possui um significado que ultrapassa a própria palestra:

“Tenho acompanhado de perto o trabalho da Elaine e tenho por ela profunda admiração. É uma advogada experiente, estudiosa, professora, líder e, sobretudo, uma pessoa que compreendeu que crescer profissionalmente também significa ajudar outras pessoas a crescerem. Na ABA, ela não guarda conhecimento nem oportunidades para si: compartilha, aproxima, incentiva e serve. Elaine representa muito daquilo que queremos construir em nossa instituição.”

A atuação de Elaine teve significado adicional nesta edição da Convenção. Como diretora-geral da ABA no Rio de Janeiro, ela esteve também diretamente envolvida na vida institucional da entidade anfitriã, recebendo dirigentes, associados e convidados que chegaram de diferentes regiões para participar do encontro.

Seu trabalho, portanto, pôde ser visto em duas dimensões complementares: na tribuna, compartilhando conhecimento; e fora dela, exercendo liderança e ajudando a construir a própria instituição que lhe oferecia a palavra.

Talvez seja justamente aí que esteja uma das formas mais legítimas de reconhecimento profissional.

Não aquele que nasce apenas de títulos.

Mas o reconhecimento construído pela soma de uma carreira, pelo conhecimento compartilhado, pelas pessoas que foram ajudadas ao longo do caminho e pela contribuição deixada nas instituições das quais se participa.

Na 24ª Convenção Anual da ABA, Elaine Molinaro falou sobre mulheres, trabalho, desempenho e saúde.

Ao fazê-lo, porém, acabou também revelando algo sobre sua própria trajetória: depois de mais de trinta anos de advocacia, continua estudando, ensinando, liderando e, principalmente, preocupando-se com as pessoas que caminham ao seu lado.

E talvez seja essa uma das marcas mais bonitas que um profissional pode deixar na advocacia.

 

Botão Voltar ao Topo