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NOVA FASE DA OPERAÇÃO CARBONO OCULTO APONTA AVANÇO DO PCC

Investigação do Gaeco e da Receita Federal mira fintechs, lavagem de dinheiro, adulteração de combustíveis e movimentações bilionárias ligadas ao crime organizado.

A nova fase da Operação Carbono Oculto, deflagrada nesta quinta-feira (28), ampliou o cerco contra um esquema bilionário de lavagem de dinheiro, adulteração de combustíveis e evasão fiscal que, segundo investigadores, manteve atividades mesmo após operações anteriores. Batizada de “Fluxo Oculto”, a ofensiva é conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, em parceria com a Receita Federal.

Ao todo, cerca de 60 mandados de busca e apreensão foram cumpridos em São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. A investigação aponta que empresários, operadores logísticos e empresas de fachada continuaram movimentando recursos por meio de fintechs e estruturas financeiras complexas para ocultar patrimônio e dificultar a fiscalização.

Segundo o Ministério Público, o esquema teria ligação indireta com o Primeiro Comando da Capital (PCC), principalmente pelo compartilhamento de estruturas financeiras usadas para ocultação e circulação de dinheiro ilícito. Os investigadores classificam a relação como uma “convergência criminal”, expressão usada para indicar o uso de mecanismos semelhantes por diferentes grupos criminosos.

Fintechs e contas digitais entram no centro da investigação

A principal frente da operação concentra esforços na chamada “engenharia financeira” utilizada para movimentar valores considerados atípicos. Relatórios de inteligência financeira apontam suspeitas envolvendo aproximadamente R$ 3,86 bilhões.

De acordo com os investigadores, o grupo utilizava fintechs e plataformas digitais como “dutos financeiros” para concentrar recursos oriundos de dezenas de postos de combustíveis em contas únicas, dificultando o rastreamento das operações pelos órgãos de controle.

Em um dos casos analisados, movimentações de 56 postos eram realizadas por meio de uma única conta vinculada à estrutura financeira investigada. O mecanismo utilizava o modelo de “conta-bolsão” e “conta gráfica”, permitindo que a identificação dos verdadeiros titulares do dinheiro ficasse restrita aos sistemas internos das instituições de pagamento.

Entre as empresas citadas na investigação estão BK Bank, Ceopag, Sispay, Vpay, Yaw e Smart Solutions Group. O relatório aponta ainda conexões entre integrantes do esquema e pessoas investigadas anteriormente por vínculos com o PCC.

A Smart Solutions Group, segundo os documentos apurados, teria movimentado mais de R$ 1,2 bilhão, enquanto a Ceopag registrou operações consideradas suspeitas que ultrapassaram R$ 800 milhões em créditos e débitos em curto espaço de tempo.

A investigação também revelou que os operadores alteravam empresas e estruturas societárias para substituir negócios já expostos em operações anteriores, estratégia que permitia manter o fluxo financeiro ativo mesmo sob monitoramento das autoridades.

“Máfia do nafta” ampliou adulteração e prejuízo fiscal

Outra frente da operação mira a chamada “máfia do nafta”, apontada como responsável por um esquema de adulteração de combustíveis e sonegação fiscal em larga escala.

Segundo o Ministério Público, empresas importadoras e produtoras de solventes petroquímicos emitiam notas fiscais falsas para justificar vendas destinadas a indústrias químicas inexistentes ou registradas em nome de “laranjas”. Na prática, o produto seria desviado para distribuidoras e terminais terrestres, onde era misturado à gasolina automotiva.

As investigações apontam que mais de 135 milhões de litros de nafta teriam sido desviados em pouco mais de dois anos. Apenas uma das empresas investigadas, a Petrodansk, teria emitido mais de 10 mil notas fiscais falsas, totalizando R$ 1,49 bilhão em operações suspeitas.

O prejuízo estimado com sonegação fiscal supera R$ 200 milhões, segundo os órgãos de fiscalização. O esquema utilizaria pessoas vulneráveis e beneficiários de programas sociais como responsáveis formais por empresas de fachada abertas exclusivamente para dar aparência legal às operações.

Entre os investigados estão empresários, operadores logísticos e administradores ligados ao transporte, armazenamento e distribuição dos combustíveis adulterados.

Fundos de investimento são apontados como camada final da lavagem

A terceira frente da operação investiga o uso de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios Não Padronizados (FIDC-NP) como mecanismo para mascarar os lucros obtidos com a adulteração de combustíveis.

Segundo os investigadores, empresas-fantasma emitiam boletos que eram quitados pelos fundos de investimento em operações consideradas incompatíveis com a lógica tradicional do mercado financeiro. As cessões de crédito ocorriam sem desconto e em prazos extremamente curtos, o que levantou suspeitas sobre a autenticidade das transações.

Os fundos Zeus FIDC-NP, Gran Capital FIDC-NP e FIDC DB Crédito Global aparecem entre os principais alvos dessa etapa da investigação. O Ministério Público afirma que essas estruturas funcionariam como uma camada final de lavagem de dinheiro destinada a ocultar os verdadeiros beneficiários dos recursos.

Os investigadores também apontam que Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, permanecem foragidos desde agosto do ano passado. Eles tentaram negociar um acordo de delação premiada com o Ministério Público, mas a proposta foi rejeitada.

Segundo os promotores, os empresários omitiram informações relevantes sobre lavagem de dinheiro, corrupção policial e conexões do esquema com o PCC. A defesa informou que não irá se manifestar neste momento porque ainda não teve acesso completo aos autos da investigação.

Por Dante Navarro (Pauta Brasil)

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