ESDRAS DANTAS DE SOUZA: QUANDO OS ADVOGADOS CRESCEM, A SOCIEDADE TAMBÉM CRESCE
O fortalecimento profissional da advocacia contribui para ampliar o acesso à Justiça, proteger direitos e consolidar a cidadania

Há mais de duas décadas, uma pergunta passou a me acompanhar:
Por que tantos advogados talentosos enfrentam tanta dificuldade para crescer profissionalmente?
Ao longo da minha trajetória, conheci profissionais brilhantes, estudiosos, éticos e profundamente comprometidos com seus clientes. Advogados e advogadas que honram diariamente a profissão, defendendo direitos, orientando famílias, protegendo patrimônios e ajudando cidadãos a encontrar caminhos diante de conflitos e injustiças.
Apesar da competência, muitos desses profissionais permanecem praticamente invisíveis.
Não lhes falta conhecimento jurídico.
Não lhes falta disposição para trabalhar.
Muitas vezes, faltam oportunidades, conexões profissionais, reconhecimento e uma rede de relacionamentos capaz de aproximá-los de outros colegas, estimular a troca de experiências e abrir novos caminhos.
Esse problema não interessa apenas à advocacia. Ele interessa a toda a sociedade.
Um advogado preparado, valorizado e conectado a uma rede profissional mais ampla possui melhores condições de atender seus clientes, compreender novas áreas do Direito, encontrar soluções adequadas para questões complexas e oferecer uma atuação mais eficiente.
Quando a advocacia se fortalece, o cidadão também se fortalece.
O isolamento ainda é uma realidade na profissão
A imagem tradicional do advogado trabalhando sozinho em seu escritório ainda corresponde à realidade de muitos profissionais brasileiros.
Mesmo com o avanço das tecnologias, das redes sociais e dos meios digitais de comunicação, o isolamento continua sendo uma das grandes dificuldades enfrentadas na advocacia.
Muitos profissionais não têm com quem compartilhar dúvidas, discutir estratégias, trocar experiências ou construir parcerias em áreas nas quais não atuam diretamente.
Um advogado especializado em Direito de Família pode precisar do auxílio de um colega que conheça Direito Tributário. Um profissional da área trabalhista pode encontrar uma situação que exija conhecimentos de Direito Previdenciário. Um advogado que atua em determinada região pode necessitar de apoio profissional em outro estado ou até no exterior.
Nenhum profissional domina sozinho todas as áreas do Direito.
Por isso, a colaboração deve ocupar um espaço cada vez maior na advocacia contemporânea. A competição existe e faz parte do mercado, mas não pode impedir a cooperação entre colegas.
Construir redes profissionais não significa apenas trocar cartões de visita ou participar de eventos. Significa criar relações de confiança, compartilhar conhecimento e compreender que a experiência de um colega pode complementar a competência de outro.
Por que nasceu a Associação Brasileira de Advogados
Foi a percepção dessas dificuldades que ajudou a dar sentido à atuação da Associação Brasileira de Advogados.
A ABA nasceu em 2002 e, como toda instituição viva, foi amadurecendo, ouvindo seus integrantes e compreendendo progressivamente qual deveria ser a sua principal contribuição para a advocacia brasileira.
Sua missão consolidou-se em torno de uma ideia muito clara: promover o crescimento e o reconhecimento profissional dos advogados, por meio de uma grande rede voltada à troca de informações, experiências e oportunidades de parcerias profissionais.
A entidade não surgiu para disputar espaço com outras instituições, mas para preencher uma lacuna: oferecer aos profissionais da advocacia um ambiente de aproximação, colaboração, aprendizado e desenvolvimento.
Ao longo dessa caminhada, muitos associados passaram a relatar que sua participação na entidade contribuiu para ampliar sua visibilidade, fortalecer sua liderança, gerar parcerias e abrir portas profissionais.
Alguns encontraram colegas com quem passaram a atuar conjuntamente. Outros começaram a escrever artigos, ministrar palestras, presidir comissões ou participar de projetos institucionais. Houve também quem desenvolvesse habilidades de liderança e passasse a ocupar novos espaços de representação na própria advocacia.
Esses resultados mostram que, muitas vezes, o profissional não precisa apenas de mais conhecimento técnico. Precisa também de uma oportunidade para demonstrar aquilo que já sabe.
Reconhecimento profissional não é vaidade
Por muito tempo, falar em visibilidade ou reconhecimento causou certo desconforto no meio jurídico. Como se o advogado competente devesse simplesmente aguardar que seu trabalho fosse descoberto naturalmente.
A realidade, entretanto, é diferente.
O reconhecimento profissional não deve ser confundido com vaidade ou autopromoção vazia. Ele é consequência da construção de credibilidade, da produção de conhecimento, da convivência institucional e da capacidade de demonstrar à sociedade quais problemas aquele profissional está preparado para solucionar.
Existem milhares de advogados altamente qualificados que permanecem desconhecidos além de um círculo muito restrito. Essa invisibilidade limita suas oportunidades, dificulta a formação de uma clientela e impede que seus conhecimentos beneficiem um número maior de pessoas.
Valorizar advogados competentes também significa permitir que o cidadão tenha acesso a profissionais preparados para defender seus direitos.
Da mesma forma, criar oportunidades para que esses profissionais escrevam, ensinem, participem de debates e assumam responsabilidades institucionais contribui para o amadurecimento da própria advocacia.
Nenhum advogado deveria caminhar sozinho
As entidades profissionais têm um papel importante nesse processo.
Além de representar interesses coletivos, elas podem funcionar como espaços de formação, convivência, escuta e desenvolvimento humano. Podem aproximar gerações, permitir que profissionais experientes compartilhem conhecimentos e criar condições para que novos talentos sejam conhecidos.
O associativismo cumpre melhor sua finalidade quando coloca as pessoas no centro de sua atuação.
Eventos, cursos, comissões e projetos são instrumentos. O objetivo verdadeiro deve ser o crescimento dos profissionais e o fortalecimento da missão que eles exercem na sociedade.
A advocacia desempenha uma função indispensável à administração da Justiça. Mas essa relevância constitucional precisa ser acompanhada por condições concretas para que os advogados exerçam sua profissão com dignidade, independência e perspectiva de desenvolvimento.
A experiência mostra que conhecimento técnico é fundamental, mas raramente é suficiente quando está isolado. Competência, relacionamentos profissionais, confiança, reputação e oportunidades caminham juntos.
É por isso que acredito que nenhum advogado deveria caminhar sozinho.
Quando profissionais se conectam, compartilham experiências e constroem oportunidades, a advocacia se torna mais preparada, mais humana e mais capaz de responder às necessidades da sociedade.
E quando a advocacia cresce com ética, conhecimento e responsabilidade, quem ganha não é apenas o advogado.
Ganha o cidadão. Ganha a Justiça. Ganha o Brasil.
Esdras Dantas de Souza
Advogado, professor universitário e presidente da Associação Brasileira de Advogados – ABA

