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A ÉTICA COMO PILAR DA SUSTENTABILIDADE ORGANIZACIONAL

Por Dra. Sabrina Genú Puell
Advogada | Colunista da Coluna Pauta Brasil

Vivemos uma época marcada por transformações sem precedentes. A velocidade da informação, os avanços tecnológicos, a inteligência artificial, a proteção de dados pessoais, as exigências de governança corporativa e o fortalecimento das políticas de integridade têm redefinido a forma como pessoas, empresas e instituições se relacionam.

Nesse cenário, a ética deixou de ocupar apenas o campo das reflexões filosóficas para assumir posição estratégica nas discussões jurídicas, empresariais e sociais contemporâneas. Mais do que um valor abstrato, ela passou a representar um verdadeiro diferencial estratégico para organizações que buscam sustentabilidade, credibilidade e legitimidade perante a sociedade.

A crescente preocupação com compliance, proteção de dados, combate à corrupção e responsabilidade social evidencia que o sucesso institucional não pode mais ser medido exclusivamente por indicadores financeiros. O mercado, os órgãos reguladores e a própria sociedade exigem transparência, responsabilidade e coerência entre discurso e prática.

Mas, afinal, o que é ética? De onde surgiu esse conceito que atravessa séculos e continua tão atual?

A ORIGEM DA ÉTICA E SUA EVOLUÇÃO HISTÓRICA

A palavra ética tem origem no termo grego ethos, que remete aos costumes, hábitos, caráter e modo de viver de uma comunidade. Desde a Antiguidade, filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles buscaram compreender quais princípios deveriam orientar a conduta humana para a construção de uma sociedade justa e equilibrada.

Aristóteles, em sua obra Ética a Nicômaco, defendia que a ética estava relacionada à busca das virtudes e do bem comum, compreendendo que as escolhas individuais produzem reflexos diretos na coletividade. Essa percepção permanece extremamente atual, sobretudo em uma sociedade globalizada, onde decisões individuais e corporativas podem gerar impactos em larga escala.

Ao longo dos séculos, a ética ultrapassou os limites da filosofia e passou a influenciar diversas áreas do conhecimento, incluindo a política, a economia, a medicina e o Direito. Sua principal finalidade sempre foi estabelecer parâmetros capazes de orientar comportamentos e decisões diante dos desafios impostos pela convivência social.

Contudo, os dilemas éticos do século XXI apresentam características inéditas. O desenvolvimento científico e tecnológico ampliou significativamente a capacidade humana de intervir na realidade, exigindo reflexões cada vez mais complexas sobre os limites e as responsabilidades decorrentes desse poder.

A ÉTICA DO UPGRADE E O DESAFIO DO APRENDIZADO CONTÍNUO

A sociedade contemporânea exige constante adaptação. Vivemos um período em que o conhecimento rapidamente se transforma e novas tecnologias surgem em ritmo acelerado.

Nesse contexto, ganha destaque aquilo que se convencionou chamar de ética do upgrade, caracterizada pela responsabilidade individual de manter-se permanentemente atualizado diante das constantes mudanças sociais, profissionais e tecnológicas.

Walter Longo observa que as etapas tradicionalmente associadas ao estudo, ao trabalho e ao descanso deixaram de seguir uma lógica linear. O aprendizado não está mais restrito aos anos de formação acadêmica. Ao contrário, tornou-se um processo contínuo e permanente.

O conceito de Lifelong Learning, ou aprendizado ao longo da vida, passou a representar uma necessidade de sobrevivência profissional e institucional. Organizações e indivíduos que não acompanham as transformações do seu tempo correm o risco de se tornarem obsoletos.

Entretanto, atualização e inovação não podem existir dissociadas da responsabilidade ética. Quanto maior o acesso ao conhecimento e à tecnologia, maior também se torna o dever de utilizá-los de forma consciente e responsável.

ÉTICA, CIÊNCIA E RESPONSABILIDADE HUMANA

Os extraordinários avanços observados nas áreas da genética, da inteligência artificial, da biotecnologia e da proteção de dados pessoais ampliaram significativamente as possibilidades de intervenção humana sobre fenômenos antes considerados exclusivamente naturais.

Essa realidade desperta questionamentos fundamentais: até onde podemos avançar? Quais limites devem ser observados? Como conciliar inovação, desenvolvimento e proteção da dignidade humana?

A perplexidade diante dos avanços científicos não pode servir como justificativa para a paralisação do progresso. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento tecnológico não pode ocorrer sem parâmetros que assegurem a proteção dos direitos fundamentais.

Nesse aspecto, o Direito desempenha papel essencial. Sua função não é impedir a inovação, mas estabelecer diretrizes capazes de harmonizar liberdade científica, desenvolvimento econômico e proteção da dignidade da pessoa humana.

Como ensina a professora Mayana Zatz, os avanços científicos frequentemente desafiam paradigmas tradicionais e exigem novas reflexões sobre responsabilidade, escolhas e consequências. O progresso somente se mostra legítimo quando acompanhado por valores éticos capazes de garantir que os benefícios produzidos pela ciência sejam colocados a serviço da humanidade.

A ÉTICA COMO FUNDAMENTO DA GOVERNANÇA E DA INTEGRIDADE

Quando transportamos essa discussão para o ambiente organizacional, torna-se evidente que a ética constitui a base de todos os mecanismos modernos de governança.

Compliance, controles internos, gestão de riscos, proteção de dados pessoais, prevenção à corrupção e programas de integridade possuem um elemento comum: todos dependem da existência de uma cultura ética sólida.

Não basta criar códigos de conduta, regulamentos internos ou políticas corporativas. A efetividade desses instrumentos depende da incorporação genuína dos valores que representam.

Organizações éticas tendem a desenvolver ambientes mais transparentes, seguros e produtivos. Conquistam maior confiança de clientes, investidores, colaboradores, parceiros comerciais e órgãos reguladores.

Por outro lado, instituições que negligenciam princípios éticos tornam-se mais vulneráveis a fraudes, conflitos de interesses, assédio, discriminação, vazamentos de informações e atos de corrupção.

Em uma sociedade hiperconectada, os impactos dessas práticas ultrapassam as sanções administrativas e judiciais. Danos reputacionais podem comprometer anos de construção institucional e afetar diretamente a continuidade das atividades empresariais.

A EVOLUÇÃO DA ÉTICA NO DIREITO CONTEMPORÂNEO

A própria legislação brasileira demonstra a crescente valorização da integridade nas relações institucionais.

A Lei Anticorrupção (Lei nº 12.846/2013), a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei nº 13.709/2018), a Lei das Estatais (Lei nº 13.303/2016) e os diversos normativos relacionados à governança corporativa evidenciam uma mudança de paradigma.

A mera conformidade legal já não se mostra suficiente para atender às expectativas de uma sociedade cada vez mais consciente e exigente. 

Hoje, espera-se das organizações uma postura ativa na prevenção de riscos, na promoção da transparência e na construção de ambientes comprometidos com a responsabilidade social e institucional.

Mais recentemente, temas como ESG, inteligência artificial, governança digital e responsabilidade algorítmica passaram a ampliar ainda mais o alcance das discussões éticas, demonstrando que a integridade continuará sendo um dos principais desafios das próximas décadas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A ética acompanha a humanidade desde os primeiros debates filosóficos da Antiguidade. Embora os desafios tenham se transformado ao longo do tempo, sua essência permanece inalterada: orientar comportamentos e decisões em busca de uma convivência mais justa, equilibrada e responsável.

No mundo contemporâneo, marcado pela transformação digital, pela inovação tecnológica e pelo fortalecimento das exigências regulatórias, a ética deixou de ser uma escolha para se tornar uma necessidade.

Mais do que cumprir normas, organizações éticas constroem confiança, fortalecem sua reputação, reduzem riscos e criam bases sólidas para um crescimento sustentável.

É justamente sobre esses alicerces que se desenvolvem os programas de compliance, as políticas de proteção de dados, os mecanismos de governança e as estratégias de prevenção à corrupção que serão abordados ao longo desta série.

REFLEXÃO DA ADVOCACIA

A advocacia contemporânea não pode limitar sua atuação à solução de conflitos já instalados. O papel do advogado moderno exige participação ativa na construção de ambientes organizacionais íntegros, transparentes e juridicamente seguros.

Promover a cultura da integridade significa atuar preventivamente, orientar decisões estratégicas e contribuir para que o desenvolvimento econômico e tecnológico ocorra em conformidade com os valores fundamentais do Estado Democrático de Direito.

A ética permanece como fundamento indispensável de toda estrutura de governança efetivamente capaz de gerar confiança, legitimidade e sustentabilidade institucional.

PRÓXIMO ARTIGO

Se a ética constitui o alicerce da integridade organizacional, surge uma pergunta inevitável: agir eticamente gera resultados concretos?

Na próxima publicação, analisaremos por que empresas éticas são mais competitivas e como a confiança, a reputação e a integridade passaram a representar importantes diferenciais estratégicos no ambiente corporativo contemporâneo.

REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco.

LONGO, Walter. https://walterlongo.com.br/ 

LONGO, Walter. O Fim da Idade Média e o Início da Idade Mídia.

NALINI, José Renato. Ética Geral e Profissional.

VALLS, Álvaro L. M. O que é Ética.

ZATZ, Mayana. GenÉtica: escolhas que nossos avós não faziam.

LEGISLAÇÃO ASSOCIADA

Lei nº 12.846/2013 (Lei Anticorrupção); 

Lei nº 13.709/2018 (LGPD); 

Lei nº 13.303/2016 (Lei das Estatais).

 

Sobre a autora:

DRA. SABRINA GENÚ PUELL 
Advogada com 16 anos de experiência, especialista em Direito Previdenciário, Direito Previdenciário Internacional, Direito e Processo do Trabalho, Assédio, Ética, Compliance e LGPD. Autora e Coautora de Artigos Jurídicos Coletânea ABA RJ, Lumen Juris Direito, Série Letras do Direito do Trabalho (Lumen Juris). Presidente da Comissão de Direito Previdenciário da OAB/RJ 32ª Subseção, Secretária Adjunta da Comissão de Compliance ABA/RJ, Secretaria Geral e Coordenadora da Comissão de Assuntos Legislativos Municipais e Estaduais da OABRJ, Membro da Comissão de Jurisprudência e Precedentes Trabalhistas (CJPST) da OABRJ, Membro da Comissão de Direito do Trabalho – GT Assédio, da OABRJ. Instagram: @sabrinapuell_advogada

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