LULA REAGE A DECISÃO DOS EUA E REAFIRMA SOBERANIA DO BRASIL
Presidente critica classificação de facções brasileiras como organizações terroristas pelos Estados Unidos e defende que o combate ao crime seja conduzido pelas instituições nacionais

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender a soberania brasileira nesta sexta-feira (29) ao comentar a decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. Durante evento realizado em Sergipe, o chefe do Executivo afirmou que o Brasil possui mecanismos próprios para enfrentar o crime organizado e rejeitou qualquer possibilidade de interferência externa em assuntos internos do país.
As declarações ocorreram um dia após o Departamento de Estado norte-americano anunciar a medida, que ainda depende de formalização pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. O tema ampliou o debate sobre cooperação internacional, segurança pública e os limites da atuação estrangeira em questões relacionadas ao combate ao crime organizado brasileiro.
Lula critica possibilidade de interferência externa
Ao comentar a decisão norte-americana, Lula ressaltou que as facções criminosas representam uma ameaça concreta para milhares de brasileiros, especialmente moradores de comunidades vulneráveis. Segundo ele, o enfrentamento dessas organizações continuará sendo uma prioridade das autoridades nacionais.
“Estou muito triste hoje, com a notícia de que o Secretário dos Estados Unidos, da América do Norte, um tal de Marco Rubio disse que os nossos criminosos aqui são terroristas e que os americanos podem fazer intervenção”, afirmou.
O presidente destacou que o Congresso Nacional aprovou legislações específicas voltadas ao combate das facções e do crime organizado, reforçando que o país possui instrumentos jurídicos e operacionais para enfrentar o problema.
“Nós aprovamos uma Lei Antifacção, e aprovamos a Lei para combater o crime organizado, e vamos combater. Eles não são os terroristas que o Trump quer, o Trump quer o Osama Bin Laden…e nós queremos os terroristas brasileiros que estão lá”, declarou.
Ao longo do discurso, Lula também enfatizou que a segurança pública deve ser conduzida pelas instituições brasileiras, dentro dos limites constitucionais e legais estabelecidos pelo país.
Presidente cobra cooperação dos Estados Unidos
Durante a cerimônia, Lula afirmou que o combate ao crime organizado exige colaboração internacional efetiva, especialmente em relação a investigados e foragidos que estejam vivendo em território norte-americano.
“Porque as armas importadas que estão contrabandeadas pro Brasil vêm dos Estados Unidos, vem de lá, as armas. A Polícia Federal entregou um documento para o Trump. O Brasil está disposto a trabalhar para combater o crime organizado, e vamos começar pelo seu estado de Delaware que tem lavagem de dinheiro de brasileiros.”
O presidente também mencionou nomes de investigados brasileiros que, segundo ele, estariam residindo nos Estados Unidos enquanto respondem a procedimentos judiciais ou administrativos no Brasil.
“Vamos começar entregando o Ramagem que está escondido lá. Começar entregando o maior contrabandista de combustíveis do país, o Ricardo Magro [dono da Refit], a PF e a Receita apreenderam R$ 250 milhões de combustível que eles estão contrabandeando e ele está morando em Miami. Eu entreguei para o Trump o nome dele e a fotografia da casa dele. Quer combater o crime organizado, me entregue os nossos que estão lá nos Estados Unidos”.
As declarações ampliaram o debate sobre cooperação policial, extradições e mecanismos de compartilhamento de informações entre os dois países.
Planalto reforça defesa da soberania nacional
Momentos antes do discurso presidencial, o Palácio do Planalto divulgou uma nota oficial defendendo a autonomia brasileira na definição das estratégias de combate ao crime organizado.
O texto afirma que medidas adotadas unilateralmente por governos estrangeiros podem gerar impactos negativos na cooperação internacional e até mesmo prejudicar ações já desenvolvidas pelas autoridades brasileiras.
Segundo o comunicado, iniciativas externas sem coordenação prévia podem afetar o intercâmbio de informações entre órgãos de segurança, gerar reflexos econômicos e criar obstáculos para políticas públicas nacionais.
No pronunciamento, Lula reforçou o mesmo posicionamento e criticou duramente qualquer tentativa de tratar o Brasil de forma subordinada.
“Não aceitamos ser tratados como moleques. Não aceitamos ser tratados como se fôssemos uma republiqueta”, afirmou.
A nota do governo conclui reiterando que a classificação e o enfrentamento de organizações criminosas devem ser definidos pelas instituições brasileiras.
“A soberania nacional é inegociável. O Brasil rejeita qualquer forma de interferência externa em seus assuntos internos. Quem define como o crime é classificado e combatido dentro do Brasil são os brasileiros, com suas instituições, suas leis e suas forças de segurança”, conclui o documento.
A decisão dos Estados Unidos e a reação do governo brasileiro devem continuar repercutindo nos próximos dias, tanto no campo diplomático quanto no debate sobre segurança pública e cooperação internacional.
