Historia da Advocacia Brasileira

Evandro Lins e Silva: a Voz da Liberdade que Ecoa na História da Advocacia Brasileira

Entre tribunais, regimes de exceção e a defesa intransigente da dignidade humana, ergueu-se um jurista cuja coragem se tornou patrimônio moral do Brasil.

Foto de arquivo ABA

Há nomes que não pertencem apenas ao seu tempo — pertencem à consciência de uma nação.
Evandro Lins e Silva é um desses nomes.

Sua trajetória não se mede apenas por cargos, títulos ou conquistas institucionais. Mede-se, sobretudo, pela firmeza com que sustentou princípios quando estes estavam sob ameaça, pela coragem com que enfrentou o poder em nome do Direito e pela dignidade com que fez da advocacia um instrumento de resistência e de esperança.

 

Uma vida dedicada ao Direito — e à liberdade

Nascido em 1912, na cidade de Parnaíba, filho de magistrado, Evandro Lins e Silva cresceu sob a influência direta do universo jurídico. Ainda jovem, revelou não apenas vocação para o Direito, mas uma inquietação intelectual que o levaria também ao jornalismo, à política e à literatura.

Formado pela tradicional Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, construiu sólida carreira na advocacia criminal, tornando-se um dos mais respeitados tribunos do país. Nos tribunais do júri, nos tribunais superiores e até mesmo nas cortes de exceção, sua atuação era marcada por técnica refinada e, sobretudo, por um profundo senso de justiça.

Não advogava apenas causas.
Advogava valores.

 

O advogado das liberdades nos tempos difíceis

Foi nos períodos mais sombrios da história brasileira que sua grandeza se revelou de forma definitiva.

Durante o Estado Novo, quando o Congresso foi fechado e opositores eram perseguidos, Evandro destacou-se pela defesa firme dos presos políticos. Em um ambiente de medo e repressão, sua atuação não era apenas jurídica — era um gesto de coragem cívica.

Anos mais tarde, com o advento do regime militar de 1964, manteve-se inabalável. Tornou-se uma das vozes mais respeitadas na defesa dos direitos humanos, enfrentando arbitrariedades e denunciando abusos com a autoridade de quem conhecia profundamente o Direito — e respeitava profundamente a liberdade.

Sua própria trajetória institucional reflete esse embate com o poder. Após ocupar cargos de enorme relevância — como Procurador-Geral da República, Ministro-Chefe da Casa Civil, Ministro das Relações Exteriores e Ministro do Supremo Tribunal Federal — foi compulsoriamente afastado da Suprema Corte em 1969, por força do AI-5.

Pagou o preço da independência.
Mas jamais abriu mão dela.

 

A advocacia como instrumento da sociedade

Evandro Lins e Silva jamais confundiu o exercício da advocacia com interesses pessoais ou corporativos. Para ele, advogar era servir à sociedade.

Essa visão ficou evidente em momentos decisivos da história recente do país. Em 1992, quando a Ordem dos Advogados do Brasil e a Associação Brasileira de Imprensa levaram ao Congresso Nacional o pedido de impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, foi Evandro o advogado escolhido para representar não apenas as instituições, mas o sentimento de indignação de toda uma nação.

Sua atuação naquele episódio reafirmou o papel da advocacia como pilar da democracia.

 

O pensador que não se calava

Além de jurista e advogado, Evandro foi também um intelectual inquieto. Membro da Academia Brasileira de Letras, autor de obras relevantes e professor de Direito Penal, manteve ao longo de toda a vida uma postura crítica diante dos rumos do país.

Sua voz nunca foi acomodada.

Em um de seus posicionamentos mais emblemáticos, alertou:

“A Constituição está sendo mutilada, e os direitos sociais, prejudicados. Essas garantias devem ser ampliadas e não retiradas.”

Não era apenas uma crítica.
Era um chamado à vigilância democrática.

 

Um legado que transcende gerações

Evandro Lins e Silva não foi apenas um grande advogado.
Foi um símbolo.

Símbolo da advocacia que não se curva.
Da técnica aliada à coragem.
Do Direito exercido com consciência social.

Seu legado permanece vivo em cada advogado que compreende que a profissão vai além da defesa de interesses — é também a defesa da ordem constitucional, das liberdades públicas e da dignidade humana.

 

A voz de quem conviveu com a história

A grandeza de Evandro também se revela nos testemunhos de quem teve o privilégio de compartilhar com ele os espaços institucionais da advocacia brasileira.

O presidente da Associação Brasileira de Advogados, Esdras Dantas de Souza, que com ele conviveu por mais de uma década no Conselho Federal da OAB, relembra com emoção:

“Convivi com o Ministro Evandro Lins e Silva durante anos no Conselho Federal da OAB, e posso afirmar: não se tratava apenas de um grande jurista, mas de um homem que carregava, em sua essência, o compromisso inegociável com a liberdade. Evandro não falava apenas de Constituição — ele a vivia. Em tempos difíceis, sua presença nos dava segurança, sua palavra nos orientava e sua coragem nos inspirava. Foi, para mim, mais do que um colega: foi uma referência de vida, de advocacia e de caráter.”

 

A permanência de um exemplo

Relembrar Evandro Lins e Silva não é apenas revisitar o passado.
É reafirmar um compromisso.

Compromisso com uma advocacia ética, independente e consciente de seu papel histórico.
Compromisso com a democracia.
Compromisso com o Brasil.

Porque há homens que passam pela história.
E há aqueles que ajudam a escrevê-la.

Evandro foi um dos que escreveram.

 

Encerramento institucional

A Associação Brasileira de Advogados (ABA), por meio do projeto “Memória da Advocacia Brasileira”, reverencia não apenas a memória de um dos maiores juristas do país, mas reafirma os valores que sustentam a própria essência da advocacia.

O projeto nasce com a missão de manter viva a história daqueles que dedicaram suas vidas à defesa da Constituição, das liberdades públicas e da dignidade humana, para que as novas gerações compreendam que a advocacia brasileira foi construída também pela coragem de homens e mulheres que jamais se calaram diante das injustiças.

 

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