DINO RELATA AMEAÇA EM AEROPORTO E ACENDE ALERTA SOBRE VIOLÊNCIA POLÍTICA
Ministro do STF afirma ter sido hostilizado por funcionária de companhia aérea em São Paulo; caso gerou reação de Edson Fachin e debate sobre radicalização no país

A imagem é uma reprodução da internet – Flávio Dino, ministro do STF — Foto: Victor Piemonte/STF
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, afirmou nesta segunda-feira (18) ter sido alvo de hostilidade por parte de uma funcionária de companhia aérea em um aeroporto de São Paulo. Segundo o magistrado, a mulher declarou que teria “vontade de xingá-lo”, mas em seguida teria dito que seria “melhor matar do que xingar”. O episódio foi relatado pelo próprio ministro em uma publicação nas redes sociais e provocou manifestações de solidariedade dentro do Judiciário.
Dino não revelou o nome da companhia aérea, da funcionária envolvida nem o aeroporto onde a situação ocorreu. O ministro também evitou divulgar o horário exato do episódio. Ainda assim, o caso rapidamente ganhou repercussão nacional por envolver ameaças direcionadas a uma autoridade da República em um ambiente público e de circulação intensa de pessoas.
Segundo o relato do ministro, a declaração foi feita após a funcionária observar seu cartão de embarque. A fala teria sido direcionada a um policial judicial do STF responsável pela segurança do magistrado durante o deslocamento.
“Em seguida se ‘corrigiu’: disse que seria melhor matar do que xingar. Como não a conheço, nem ela me conhece, é claro que tais manifestações derivam de minha atuação no STF”, escreveu Dino.
A publicação do ministro abriu uma nova discussão sobre o aumento da tensão política no Brasil, especialmente em um período de disputas eleitorais mais acirradas e forte polarização nas redes sociais.
declaração de Dino amplia debate sobre intolerância
Ao comentar o episódio, Flávio Dino afirmou que não vê a situação apenas como um problema pessoal. Para o ministro, manifestações de ódio dirigidas a autoridades públicas podem estimular comportamentos semelhantes em diferentes ambientes da sociedade.
O magistrado afirmou que episódios dessa natureza merecem atenção porque podem criar um ambiente de insegurança até mesmo em setores essenciais, como o transporte aéreo.
“Imaginemos que outros funcionários, da mesma ou outra empresa aérea, sejam contaminados com idêntico ódio. Isso pode significar até riscos para segurança de aeroportos e de voos e, por conseguinte, de outros passageiros. Imaginemos se isso se alastra para outros segmentos de negócios: um cliente corre o risco de, por exemplo, ser envenenado?”, afirmou.
Dino também defendeu que empresas que atuam diretamente com atendimento ao público promovam campanhas internas voltadas à educação cívica e ao respeito institucional.
“Assim, o pedido que faço às empresas em geral, mas especialmente àquelas que lidam com o público, é que façam campanhas internas de educação cívica para que todos possam conviver em paz, especialmente nesse ano eleitoral, em que muitos sentimentos se acirram”, escreveu.
O ministro destacou ainda que divergências políticas fazem parte da democracia, mas ressaltou que opiniões individuais não podem justificar agressões ou ameaças em relações cotidianas.
“Cada um tem sua opinião, suas simpatias e o seu voto individual. Mas um cidadão não pode ter receio de sofrer uma agressão de um funcionário de uma empresa, ao consumir um serviço ou produto. Pode ter sido um ‘caso isolado’. Porém, com o andar do calendário eleitoral, pode não ser. Então é melhor prevenir”, afirmou.
A manifestação de Dino ocorre em um contexto de aumento das discussões sobre violência política, discurso de ódio e ataques direcionados a integrantes das instituições públicas brasileiras.

Presidente Edson Fachin, durante Sessão Plenária do STF (foto de Gustavo Moreno/STF)
Fachin manifesta solidariedade e reforça defesa institucionalDurante cerimônia de posse de novos integrantes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), também nesta segunda-feira, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, prestou solidariedade pública a Flávio Dino.
Sem entrar em detalhes sobre o episódio, Fachin classificou o caso como grave e afirmou que o respeito às instituições e às pessoas é indispensável para a convivência democrática.
“Manifestamos nossa solidariedade ao ministro Flávio Dino diante do grave fato, incidente ocorrido hoje, num dos aeroportos de São Paulo, cujo relato foi tornado público. O respeito a todas as pessoas, tenham ou não funções públicas, instituições e autoridades legitimamente constituídas, é condição essencial da convivência republicana”, declarou.
Antes mesmo do discurso no CNJ, Fachin já havia divulgado uma nota oficial tratando do episódio. No texto, o presidente do STF afirmou que divergências políticas não podem abrir espaço para violência ou ataques pessoais.
“A divergência de ideias, própria da democracia, jamais pode abrir espaço para o ódio, para a violência em qualquer de suas formas ou para qualquer modo de agressão pessoal”, afirmou.
O ministro também defendeu a preservação da civilidade e do debate democrático.
“Impõe-se reafirmar os valores da civilidade, da tolerância e da paz social. O Brasil precisa de serenidade, espírito público e compromisso democrático, para que as diferenças possam coexistir dentro dos limites do respeito mútuo e da dignidade humana”, escreveu.
As declarações ocorreram no mesmo momento em que Fachin fez críticas ao uso de ataques políticos voltados à deslegitimação das instituições republicanas. Segundo ele, a crítica é legítima dentro da democracia, mas o enfraquecimento deliberado das instituições pode gerar instabilidade.
“Criticar é legítimo. Deslegitimar, não. Divergir é próprio do regime democrático. Fragilizar as instituições que o sustentam é abrir caminho para a instabilidade e para o arbítrio”, afirmou.
polarização política volta ao centro das discussões
O episódio envolvendo Flávio Dino ocorre em meio a um cenário de forte polarização política no Brasil, marcado por disputas ideológicas intensas nas redes sociais e crescimento do debate sobre desinformação e radicalização.
Nos últimos anos, integrantes do Judiciário, parlamentares, jornalistas e outras figuras públicas passaram a relatar com maior frequência situações de hostilidade em espaços públicos e ambientes digitais. Especialistas em comportamento político apontam que a ampliação do alcance das redes sociais contribuiu para o aumento da agressividade em debates públicos.
No discurso desta segunda-feira, Edson Fachin também mencionou o impacto de campanhas coordenadas de desinformação na credibilidade das instituições.
“Financiar de forma sistemática, e com finalidade eleitoral, informações falsas enfraquece a institucionalidade, os Poderes da República e o tecido social. A liberdade de expressão política é um valor constitucional que sempre deve ser preservado”, afirmou.
O presidente do STF acrescentou ainda que a própria democracia depende da preservação das condições institucionais que garantem o debate público equilibrado.
“Ao lado, a Constituição também protege as condições institucionais sem as quais a própria democracia não funciona. Isso inclui a integridade do debate público contra campanhas coordenadas de desinformação financiada”, completou.
O caso relatado por Flávio Dino segue repercutindo entre autoridades políticas e jurídicas. Até o momento, não houve divulgação de investigação oficial sobre o episódio nem confirmação pública da companhia aérea envolvida.



