Muito além do networking: por que a advocacia precisa resgatar a ética como bandeira
Em um cenário de excesso de visibilidade e escassez de referência, a ABA propõe um novo caminho: formar advogados respeitados, não apenas conhecidos.

Por Dante Navarro
Vivemos uma era em que aparecer se tornou fácil.
Mas ser respeitado… nunca foi tão difícil.
Na advocacia contemporânea, multiplicam-se cursos, mentorias, eventos e comunidades que prometem visibilidade, posicionamento e crescimento profissional. E tudo isso é, sim, importante. Afinal, o advogado que não é visto, muitas vezes não é lembrado.
Mas há uma pergunta que precisa ser feita — e que poucos têm coragem de enfrentar:
De que adianta ser visto, se não for respeitado?
É exatamente nesse ponto que surge um novo olhar sobre o futuro da advocacia brasileira — um olhar que não rejeita o crescimento, mas o ancora em algo essencial: a deontologia jurídica.
O problema silencioso da advocacia atual
A verdade, ainda que incômoda, é que parte da advocacia vem se afastando de seus pilares mais nobres.
A busca desenfreada por clientes, a exposição excessiva nas redes sociais, a banalização do conteúdo jurídico e a flexibilização de princípios éticos têm gerado um efeito colateral perigoso:
a perda gradual de credibilidade da profissão.
Não se trata de um julgamento.
Trata-se de um alerta.
Quando a ética deixa de ser o centro, o mercado passa a premiar o barulho — e não o valor.
A deontologia como caminho de reconstrução
A deontologia jurídica não é um conceito antigo, preso aos livros ou às salas de aula.
Ela é, na verdade, a bússola que orienta o advogado em meio às pressões do mundo real.
Ela define limites.
Mas, mais do que isso, define identidade.
Ser ético não é ser limitado.
É ser confiável.
E, no longo prazo, a confiança sempre vence a exposição vazia.
A proposta da ABA: uma nova cultura na advocacia
Diante desse cenário, a Associação Brasileira de Advogados (ABA) assume uma posição clara — e, ao mesmo tempo, corajosa:
“A ABA não forma apenas advogados visíveis. Forma advogados respeitados.”
Essa não é apenas uma frase de impacto.
É um posicionamento institucional.
Enquanto muitas iniciativas focam exclusivamente em crescimento individual, a ABA propõe algo maior:
o crescimento com responsabilidade, com ética e com propósito coletivo.
Isso significa formar profissionais que:
- sabem se posicionar, sem ultrapassar limites éticos;
- constroem autoridade, sem recorrer a atalhos;
- valorizam honorários, sem comprometer sua integridade;
- e, acima de tudo, entendem que advogar é servir à justiça — não apenas ao mercado.
Respeito: o ativo mais valioso da carreira jurídica
No início da carreira, muitos buscam clientes.
Com o tempo, passam a buscar estabilidade.
Mas, no auge da maturidade profissional, há um valor que supera todos os outros:
o respeito.
Respeito dos clientes.
Respeito dos colegas.
Respeito do Judiciário.
Respeito da sociedade.
E esse respeito não se constrói com estratégias vazias.
Ele é resultado direto de uma trajetória pautada na ética.
Um novo convite à advocacia brasileira
O que a ABA propõe não é um retorno ao passado.
É um avanço com consciência.
É possível crescer.
É possível ganhar dinheiro.
É possível se destacar.
Mas é preciso fazer isso sem abrir mão da essência da profissão.
A advocacia não precisa escolher entre visibilidade e dignidade.
Ela pode — e deve — ter as duas.
Palavra do Presidente
O presidente da Associação Brasileira de Advogados, Esdras Dantas, resume esse novo momento com clareza:
“A advocacia não precisa apenas de mais visibilidade.
Precisa de mais caráter, mais propósito e mais responsabilidade.
E é isso que a ABA está construindo.”
Conclusão
Em um mundo onde muitos ensinam a aparecer,
a ABA escolheu ensinar algo mais profundo:
como permanecer.
Porque, no fim das contas,
não é o advogado mais visto que constrói as maiores carreiras.
É o advogado mais respeitado.
E esse… o tempo não apaga.
Dante Navarro é jornalista e editor-chefe do Pauta Brasil



