Democracia sob Ataque: Defender as Instituições é Defender o Futuro do Brasil
Quando a mentira vira método e a desconfiança vira projeto, a democracia paga a conta — e todos nós com ela.

Por Esdras Dantas de Souza
Introdução — quando o ruído tenta substituir a verdade
Imagine um semáforo desligado em uma grande avenida. O caos não nasce da falta de carros, mas da ausência de regras confiáveis. Algo semelhante ocorre quando a democracia é bombardeada por desinformação: não faltam vozes; falta referência. Em tempos de redes sociais aceleradas, boatos vestem a fantasia de notícia e disputam espaço com fatos. O resultado? Confusão, radicalização e descrédito nas instituições que sustentam a vida republicana.
Democracia não é abstrata: ela vive nas instituições
Democracia não é uma ideia etérea pendurada em discursos. Ela se materializa nas instituições públicas, especialmente nos três Poderes da República, que existem para equilibrar forças, conter abusos e garantir direitos. Quando se ataca o funcionamento legítimo dessas instituições — por desinformação, deslegitimação sistemática ou intimidação simbólica — o alvo final não é um prédio ou um cargo. É a confiança coletiva que mantém o país de pé.
Defender as instituições não significa blindá-las de críticas. Ao contrário: críticas responsáveis são o oxigênio da democracia. O problema começa quando a crítica vira campanha de desmoralização, quando a divergência vira desinformação e quando o debate cede lugar ao ataque pessoal.
Fake news: o veneno silencioso do Estado Democrático
Notícias falsas não são apenas erros de informação; são instrumentos de corrosão democrática. Elas confundem o cidadão, sequestram a boa-fé e transformam diferenças legítimas em inimigos imaginários. O dano é cumulativo: cada mentira compartilhada enfraquece o diálogo público e normaliza a ideia de que “tudo é opinião”, inclusive os fatos.
Combater a desinformação não é censura. É responsabilidade cívica. É defender o direito do cidadão de decidir com base em informações confiáveis. A liberdade de expressão perde sentido quando a mentira deliberada ocupa o centro da conversa.
O papel dos juristas, da imprensa e da sociedade
Num cenário assim, juristas, professores, comunicadores e cidadãos não podem ser espectadores. A defesa do Estado Democrático de Direito exige postura: esclarecer, contextualizar, traduzir a complexidade sem simplificações perigosas. A imprensa cumpre papel vital ao separar fato de boato; o Direito, ao lembrar limites e garantias; a sociedade, ao recusar o compartilhamento irresponsável.
Democracias maduras não temem o debate — temem a ignorância organizada.
Conclusão — a democracia se defende todos os dias
Defender a democracia é um exercício cotidiano. Passa por respeitar as instituições, fiscalizá-las com responsabilidade e rejeitar a mentira como método político. Passa por entender que discordar não é destruir e que criticar não é desacreditar.
O futuro democrático do Brasil não será decidido por algoritmos, mas por escolhas conscientes. Em tempos de ruído, escolher a verdade é um ato de coragem. Em tempos de ataque, defender as instituições é um ato de cidadania.
Por Esdras Dantas de Souza, advogado, professor e presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA)



