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O início da advocacia não é glamouroso — e tudo bem

Quebrar o mito do sucesso rápido é o primeiro passo para construir uma carreira jurídica sólida, humana e sustentável

Por Esdras Dantas de Souza

O imaginário popular costuma vender a advocacia como uma profissão de vitórias rápidas, escritórios sofisticados e reconhecimento imediato. Redes sociais, discursos motivacionais rasos e histórias isoladas de sucesso contribuem para essa narrativa. No entanto, para a maioria dos profissionais do Direito, o início da carreira é marcado por incertezas, dificuldades financeiras, insegurança técnica e muito aprendizado silencioso. E isso não é um desvio do caminho — é o próprio caminho.

Reconhecer que o começo não é glamouroso não significa desvalorizar a profissão. Pelo contrário: é humanizar a jornada, alinhar expectativas à realidade e permitir que novos advogados cresçam com mais equilíbrio emocional, ética profissional e visão de longo prazo. Em um cenário jurídico cada vez mais competitivo, normalizar os recomeços e desconstruir o mito do sucesso imediato torna-se uma necessidade institucional e social.

Ao trazer essa discussão para o centro do debate, a advocacia se fortalece. Jovens profissionais passam a enxergar o percurso com mais clareza, mentores surgem de forma natural e a profissão recupera um de seus valores essenciais: a construção gradual da confiança.

O mito do sucesso rápido na advocacia

Um dos maiores obstáculos enfrentados por quem inicia na advocacia é a comparação constante com trajetórias idealizadas. Histórias de ascensão meteórica, quando apresentadas sem contexto, criam a falsa impressão de que o sucesso é rápido, linear e acessível a todos da mesma forma. Na prática, isso raramente corresponde à realidade.

O exercício da advocacia exige tempo para maturação técnica, compreensão do sistema jurídico, formação de reputação e construção de rede de contatos. Nenhum desses elementos se consolida de forma instantânea. A insistência na ideia de sucesso imediato pode gerar frustração, abandono precoce da carreira e até adoecimento emocional.

Além disso, o início da profissão costuma envolver atividades pouco visíveis: estudo constante, acompanhamento de processos, audiências como ouvinte, elaboração de peças sob supervisão e, muitas vezes, trabalho sem retorno financeiro imediato. Esses esforços, embora invisíveis, são fundamentais para a formação de um profissional sólido.

Quebrar o mito do sucesso rápido não é desestimular. É preparar. É dizer, com honestidade, que o reconhecimento vem com consistência, ética e perseverança — não com atalhos.

Humanizar a jornada profissional do jovem advogado

Humanizar a advocacia começa por admitir que o início é desafiador. Muitos jovens profissionais carregam a expectativa de que o diploma, por si só, abrirá portas. Quando isso não acontece, surge a sensação de fracasso pessoal, mesmo quando o que existe é apenas um processo natural de amadurecimento.

Ao normalizar as dificuldades iniciais, a profissão cria um ambiente mais saudável. Falar sobre insegurança, erros comuns, aprendizados lentos e recomeços necessários não diminui ninguém — aproxima gerações. Advogados mais experientes, ao compartilharem suas próprias histórias de início, tornam-se referências reais, não inalcançáveis.

Essa humanização também passa por compreender que cada trajetória é única. Há quem comece em grandes escritórios, quem atue como autônomo, quem transite entre áreas até se encontrar. Nenhuma dessas escolhas define, isoladamente, o sucesso futuro. O que importa é a coerência entre valores, propósito e prática profissional.

Quando a advocacia se permite ser humana, ela deixa de exigir perfeição imediata e passa a valorizar evolução contínua.

Recomeços não são fracassos, são estratégia

Outro ponto essencial para uma visão mais realista da advocacia é a normalização dos recomeços. Trocar de área, mudar de cidade, ajustar o modelo de atuação ou até pausar para estudar mais não são sinais de fracasso — são decisões estratégicas diante de novas compreensões.

Em um mercado jurídico em constante transformação, a capacidade de reavaliar rotas é um diferencial. Profissionais que insistem em caminhos que não fazem mais sentido, apenas por medo de “parecerem instáveis”, tendem a se frustrar. Já aqueles que entendem o recomeço como parte do crescimento constroem carreiras mais alinhadas com suas competências e com a realidade do mercado.

Normalizar recomeços também significa acolher quem está tentando novamente. A advocacia não pode ser um espaço de julgamento silencioso, mas de aprendizado coletivo. Cada tentativa traz experiência, e cada ajuste aumenta a chance de acerto no longo prazo.

Ao tratar o recomeço como parte legítima da trajetória, a profissão se torna mais inclusiva, resiliente e preparada para formar líderes conscientes.

Uma profissão que forma mentores pelo exemplo

Quando advogados mais experientes falam com honestidade sobre seus próprios começos, eles se tornam mentores naturais. Não pelo discurso motivacional vazio, mas pela identificação. Jovens profissionais não precisam apenas de inspiração — precisam de referências reais.

Ao quebrar o mito do glamour inicial, humanizar a jornada e normalizar recomeços, a advocacia cria pontes entre gerações. Isso fortalece a classe, reduz desistências silenciosas e promove uma cultura de apoio mútuo.

O início da advocacia pode não ser glamouroso. Mas é nesse período que se constroem os fundamentos de uma carreira ética, consistente e duradoura. E, justamente por isso, está tudo bem que seja assim.

 

Esdras Dantas de Souza é advoagdo, professor, sócio fundador do escritório Esdras Dantas de Souza Advogados Associados – www.esdrasdantas.com e presidente da Associação Brasileira de Advogados

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