Dra. Lirian Cavalhero – Liderança estratégica e visão institucional: a força da advocacia empresarial contemporânea
Por Dante Navarro

ENTREVISTA
Pauta Brasil – A sua atuação é marcada por uma advocacia empresarial estratégica e altamente especializada. Em que momento da sua carreira a senhora percebeu que o advogado empresarial precisava ir além do contencioso tradicional?
Essa percepção nasceu da própria vivência com o setor produtivo. Ao longo da minha trajetória, especialmente no contato direto com empresas e entidades representativas, ficou evidente que o contencioso tradicional, embora indispensável, é sempre uma atuação de reação. O empresário precisa, cada vez mais, de previsibilidade.
Foi nesse contexto que amadureci a convicção de que o advogado empresarial deve atuar como estrategista institucional, antecipando riscos, estruturando operações e contribuindo para um ambiente de negócios mais seguro. Hoje, a advocacia que realmente gera valor é aquela que previne, orienta e constrói caminhos.
Pauta Brasil – Como Diretora de Relações Institucionais da ABA, qual é a importância do diálogo técnico entre os Poderes?
O diálogo institucional qualificado é absolutamente essencial para a saúde do ambiente econômico. As empresas operam em um cenário regulatório complexo e dinâmico. Quando não há interlocução técnica consistente entre o setor produtivo e os Poderes, corre-se o risco de produzir normas desconectadas da realidade.
Na ABA, trabalhamos justamente para qualificar esse diálogo, levando contribuições jurídicas responsáveis ao Executivo, ao Legislativo e ao Judiciário. Segurança jurídica se constrói também na boa formulação normativa e na escuta institucional.
Pauta Brasil – Quais são hoje os maiores desafios regulatórios das empresas brasileiras?
Vivemos um momento de elevada densidade regulatória. Destaco três grandes pontos de atenção: a complexidade tributária, o avanço das exigências em matéria trabalhista e o crescimento das obrigações ligadas à proteção de dados e governança digital.
Diante desse cenário, o advogado empresarial precisa assumir uma postura preventiva e estruturante. Não basta atuar no litígio. É fundamental trabalhar com pareceres estratégicos, revisão de modelos de negócio, compliance regulatório e monitoramento legislativo contínuo.
Pauta Brasil – A senhora leva a experiência brasileira para países da América do Sul e da Europa. O que o Brasil tem a ensinar — e o que ainda precisa aprender?
O Brasil possui uma advocacia empresarial extremamente sofisticada, acostumada a operar em ambientes regulatórios complexos. Essa experiência desperta grande interesse em países da América do Sul e da Europa.
Por outro lado, ainda precisamos avançar em estabilidade normativa, simplificação regulatória e previsibilidade decisória. O investidor valoriza confiança institucional. Temos evoluído, mas esse é um campo em permanente construção.
Pauta Brasil – Qual é o impacto real da proteção de dados na estrutura das empresas?
O impacto é estrutural. A proteção de dados deixou de ser um tema periférico e passou a integrar o núcleo da governança empresarial. Ela influencia contratos, relações de trabalho, estratégias de marketing, tecnologia e até o valuation das empresas.
O Brasil deu um passo importante com a LGPD, mas ainda estamos em fase de amadurecimento cultural. As organizações que compreenderem o caráter estratégico da governança digital estarão mais preparadas para competir em um mercado cada vez mais regulado.
Pauta Brasil – Como avalia a evolução da presença feminina na advocacia empresarial?
Houve avanços relevantes. Hoje vemos mais mulheres ocupando posições técnicas e institucionais de destaque. O desafio atual é ampliar a presença feminina nos centros efetivos de decisão.
Competência nunca foi a barreira. O movimento que observamos agora é de consolidação e amadurecimento dessa presença, especialmente na advocacia empresarial e institucional.
Pauta Brasil – No livro “Advogado de Alta Performance”, quais são os pilares da excelência na advocacia atual?
A advocacia contemporânea exige uma combinação de fatores. Destaco cinco pilares: visão estratégica do negócio do cliente, domínio técnico atualizado, leitura institucional do cenário, atuação preventiva e comunicação clara com o setor produtivo.
O advogado de alta performance precisa ir além da técnica jurídica. Ele deve compreender o impacto econômico e regulatório das suas decisões.
Pauta Brasil – Qual é a sua visão para o fortalecimento institucional da advocacia brasileira?
Vejo três caminhos fundamentais: qualificação técnica contínua, maior inserção internacional e presença institucional mais ativa.
A advocacia brasileira é altamente preparada. O próximo passo é ampliar sua projeção global e reforçar seu papel como agente de desenvolvimento econômico e institucional. Esse é um dos compromissos que temos buscado fortalecer no âmbito da ABA.