Entre símbolos, crime e fé: o que revela a queda da estrela no Complexo de Israel
As informações são do site BBC News Brasil

A derrubada de uma grande estrela de Davi instalada no alto de uma caixa d’água, em Parada de Lucas, na Zona Norte do Rio de Janeiro, durante operação da Polícia Militar, reacendeu um debate que vai além da cena simbólica. O alvo da ação foi uma marca territorial associada ao Terceiro Comando Puro (TCP), facção criminosa que controla o chamado Complexo de Israel e que, nos últimos anos, passou a incorporar discursos e símbolos religiosos em sua identidade.
Na mesma operação, policiais demoliram um imóvel de alto padrão atribuído ao líder do grupo, Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como “Peixão”. Embora a ofensiva tenha provocado impacto visual e midiático, o chefe da facção permanece foragido e nunca esteve no sistema prisional, o que evidencia limites persistentes no enfrentamento às lideranças do crime organizado.
Expansão nacional e novas alianças
Autoridades de inteligência alertam que o episódio não representa, por si só, um enfraquecimento estrutural do TCP. Dados da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) indicam que a facção vive um ciclo de expansão para além do Rio de Janeiro, com presença registrada em estados como Ceará, Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás e outros. Nesse cenário, o TCP desponta como um dos principais grupos emergentes do país, ao lado do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC).
No Ceará, a entrada do TCP ocorreu por meio de alianças com grupos locais, especialmente o Guardiões do Estado (GDE), em um movimento já observado em processos de “nacionalização” de facções. A consequência tem sido o aumento da disputa territorial com o CV, elevando riscos de confrontos armados e impactos diretos sobre a população.
Efeitos sociais: violência e intolerância
Relatos de autoridades, pesquisadores e organizações sociais apontam efeitos concretos dessa expansão: extorsões, fechamento temporário de escolas, deslocamento forçado de moradores e episódios de intolerância religiosa, como o fechamento de terreiros de religiões de matriz africana. Em comunidades afetadas, o medo impõe silêncios, altera rotinas e restringe direitos básicos, como ir e vir e acesso à educação.
O papel do discurso religioso
Pesquisadores destacam que o TCP reúne três características que ajudam a explicar sua dinâmica atual: menor confronto direto com a polícia em áreas sob seu controle, alianças estratégicas — inclusive com o PCC — e a incorporação de práticas associadas a milícias, como a extorsão sistemática. A isso se soma o uso instrumental da linguagem religiosa, fenômeno que estudiosos têm chamado de “narcopentecostalismo”.
Nesse contexto, símbolos e discursos de fé não indicam prática religiosa autêntica, mas funcionam como ferramenta de coesão interna, legitimação da violência e justificativa moral para a expansão territorial, frequentemente descrita como “guerra espiritual”. Especialistas alertam que essa retórica tende a agravar conflitos e a intensificar perseguições a grupos vistos como “inimigos”.
Para além do gesto simbólico
A queda da estrela, portanto, carrega mais significado simbólico do que efeito prático imediato. Ela expõe a complexa intersecção entre crime organizado, poder territorial, religião e políticas de segurança pública. Ao mesmo tempo, reforça um desafio central para o Estado: combater facções de forma consistente, protegendo populações vulneráveis e enfrentando não apenas símbolos, mas as estruturas financeiras, logísticas e ideológicas que sustentam o avanço do crime organizado no Brasil.



