Advocacia que constrói pontes: Dra. Catharina Taquary destaca a força da mediação para transformar conflitos em soluções
Jurista, pesquisadora e presidente da Comissão Nacional de Mediação da ABA fala ao Pauta Brasil sobre liderança, conhecimento multidisciplinar e o futuro da advocacia na promoção da pacificação social.

Em um tempo em que a sociedade enfrenta conflitos cada vez mais complexos — nas relações familiares, institucionais e sociais — cresce a importância de profissionais capazes de construir pontes, promover o diálogo e buscar soluções que ultrapassem a lógica tradicional do litígio. Nesse cenário, a mediação surge como um instrumento moderno de pacificação social e de fortalecimento da cidadania, ampliando o papel do advogado como verdadeiro agente de transformação.
É nesse contexto que o Pauta Brasil apresenta uma entrevista especial com a Dra. Catharina Orbage de Britto Taquary Berino, Presidente da Comissão Nacional de Mediação da Associação Brasileira de Advogados (ABA) e uma das juristas mais dedicadas ao estudo e à construção de caminhos inovadores para a resolução de conflitos no Brasil.
Com uma trajetória acadêmica e profissional que impressiona pela profundidade e diversidade de conhecimentos, Dra. Catharina é Pós-Doutora, Doutora e Mestre em Direito, além de possuir múltiplas especializações em áreas que dialogam diretamente com os desafios contemporâneos da sociedade e do sistema de justiça, como Conciliação e Mediação de Conflitos, Psicologia Jurídica, Direito da Família, Direito Constitucional, Antropologia e Gestão Educacional. Sua formação multidisciplinar se amplia ainda mais com graduações em Filosofia, Letras, Pedagogia e História, revelando uma visão humanista e interdisciplinar do Direito.
Pesquisadora ativa e comprometida com a produção científica, Dra. Catharina atua em importantes grupos de pesquisa vinculados ao CNPq, com destaque para as linhas dedicadas à segurança jurídica, inovação, tecnologia e acesso à justiça, temas essenciais para o aprimoramento das instituições jurídicas brasileiras. Também integra o Observatório das Múltiplas Violências Contra a Mulher da OAB/DF, contribuindo para o enfrentamento de uma das mais sensíveis e urgentes questões sociais do nosso tempo.
Na Associação Brasileira de Advogados, exerce papel de grande relevância ao liderar a Comissão Nacional de Mediação, espaço voltado à difusão dos métodos adequados de solução de conflitos e ao fortalecimento de uma cultura jurídica mais colaborativa, humana e eficiente.
Mais do que uma jurista de currículo admirável, Dra. Catharina representa uma advocacia comprometida com o conhecimento, com a ética e com a construção de soluções que promovam harmonia social. Sua atuação inspira advogados de todo o país a compreender que o futuro da advocacia passa também pela capacidade de dialogar, mediar e construir consensos.
Nesta entrevista concedida ao Pauta Brasil, a professora e pesquisadora compartilha sua visão sobre os desafios da mediação no Brasil, a importância da formação multidisciplinar do jurista e o papel da advocacia na construção de uma sociedade mais justa, equilibrada e pacífica.
Uma conversa que revela não apenas a trajetória de uma profissional brilhante, mas também um convite para que a advocacia brasileira avance, com coragem e conhecimento, rumo a um novo paradigma de justiça.
ENTREVISTA — Dr.ª Catharina Taquary Berino
Presidente da Comissão Nacional de Mediação da ABA
Pauta Brasil: Dr.ª Catharina, sua formação multidisciplinar é extraordinária, envolvendo Direito, Educação, Filosofia e Psicologia. Como essa base ampla influencia sua visão sobre a mediação como instrumento moderno de pacificação social?
Dr.ª Catharina: A mediação, por natureza, exige um olhar que ultrapassa os limites estritamente jurídicos. A formação em áreas como Filosofia, Psicologia e Educação permite compreender o conflito não apenas como uma controvérsia normativa, mas como um fenômeno humano, relacional e social. A Filosofia contribui para refletirmos sobre ética, diálogo e alteridade; a Psicologia auxilia na compreensão das emoções e dinâmicas comportamentais presentes nos conflitos; e a Educação oferece ferramentas para construção de processos de aprendizado e transformação. Essa integração de saberes fortalece a mediação como um instrumento contemporâneo de pacificação social, capaz de promover não apenas soluções jurídicas, mas também reconstrução de vínculos e desenvolvimento de uma cultura de diálogo.
Pauta Brasil: A senhora é uma entusiasta declarada da mediação. Na sua percepção, por que esse instituto representa um avanço civilizatório na forma de resolver conflitos?
Dr.ª Catharina: A mediação representa um avanço civilizatório porque desloca o foco da imposição de uma decisão para a construção compartilhada de soluções. Em vez de simplesmente declarar vencedores e vencidos, o processo de mediação incentiva as partes a assumirem protagonismo na resolução de seus próprios conflitos. Isso fortalece a autonomia, a responsabilidade e o respeito mútuo. Em uma sociedade democrática, métodos que privilegiam o diálogo, a escuta qualificada e a cooperação contribuem para relações sociais mais equilibradas e sustentáveis. A mediação, nesse sentido, não apenas resolve conflitos: ela educa para a convivência.
Pauta Brasil: O Brasil ainda possui uma cultura fortemente litigiosa. Como a mediação pode contribuir para transformar esse cenário e promover soluções mais humanas e eficientes?
Dr.ª Catharina: A mudança cultural exige tempo, educação e experiência prática bem-sucedida. A mediação oferece um caminho para essa transformação ao demonstrar que muitos conflitos podem ser resolvidos de forma mais célere, econômica e satisfatória para as partes. Quando as pessoas percebem que podem ser ouvidas, participar ativamente da solução e preservar relações importantes, o paradigma da litigiosidade começa a ser questionado. Além disso, a mediação contribui para desafogar o sistema judicial, permitindo que o Judiciário concentre seus esforços em questões que realmente necessitam de decisão jurisdicional. Assim, ganham as partes, ganha a sociedade e ganha o próprio sistema de Justiça.
Pauta Brasil: Sua atuação acadêmica e liderança em grupos de pesquisa vinculados ao CNPq demonstram forte compromisso com inovação. Como a tecnologia e os métodos adequados de solução de conflitos podem caminhar juntos no futuro da Justiça?
Dr.ª Catharina: A tecnologia abre novas possibilidades para os métodos adequados de solução de conflitos, especialmente ao ampliar o acesso e a eficiência dos procedimentos. Plataformas digitais de mediação, sistemas de resolução online de disputas (ODR) e ferramentas de inteligência de dados podem facilitar a gestão de conflitos, reduzir custos e aproximar as partes, mesmo quando estão geograficamente distantes. No entanto, é fundamental que a tecnologia seja utilizada como instrumento de apoio, sem substituir os elementos humanos essenciais da mediação, como empatia, escuta ativa e construção de confiança. O futuro da Justiça provavelmente será híbrido: combinando inovação tecnológica com práticas humanizadas de resolução de conflitos.
Pauta Brasil: A mediação exige habilidades que vão além do conhecimento jurídico tradicional. Quais competências o advogado moderno precisa desenvolver para atuar com excelência nessa área?
Dr.ª Catharina: O advogado que deseja atuar com excelência na mediação precisa desenvolver competências comunicacionais e relacionais muito sólidas. Entre elas, destacam-se a escuta ativa, a capacidade de formular perguntas estratégicas, a gestão de emoções, a negociação colaborativa e a construção de ambientes de confiança. Também é fundamental desenvolver sensibilidade para compreender interesses subjacentes ao conflito, que muitas vezes não estão explícitos nas posições apresentadas pelas partes. O profissional da mediação precisa, portanto, combinar conhecimento jurídico com habilidades interpessoais, pensamento estratégico e postura ética orientada à cooperação.
Pauta Brasil: A senhora também integra importantes iniciativas relacionadas à proteção da mulher e aos direitos humanos. Como a mediação pode atuar de forma sensível e eficaz em conflitos que envolvem vulnerabilidades sociais?
Dr.ª Catharina: Em contextos que envolvem vulnerabilidades sociais, a mediação deve ser conduzida com extrema cautela e responsabilidade. É essencial observar princípios como voluntariedade, equilíbrio de poder entre as partes e proteção da dignidade humana. Em determinadas situações, especialmente quando há violência ou assimetrias significativas, a mediação pode não ser o caminho adequado. Contudo, quando realizada com protocolos apropriados, mediadores capacitados e abordagem sensível às questões de gênero e direitos humanos, ela pode contribuir para ampliar o diálogo, fortalecer a autonomia das partes e construir soluções mais respeitosas e restaurativas.
Pauta Brasil: À frente da Comissão Nacional de Mediação da ABA, quais projetos e iniciativas a senhora pretendem desenvolver para ampliar a capacitação e a visibilidade dos advogados mediadores no Brasil?
Dr.ª Catharina: Entre os objetivos da Comissão está o fortalecimento da formação continuada em mediação, por meio de cursos, seminários, publicações e parcerias institucionais. Também pretendemos incentivar a produção acadêmica e a troca de experiências entre profissionais que atuam com métodos adequados de solução de conflitos em diferentes regiões do país. Outro eixo importante é ampliar a visibilidade da mediação dentro da própria advocacia, demonstrando que essa atuação não representa uma alternativa ao exercício profissional tradicional, mas sim uma ampliação qualificada das possibilidades de atuação do advogado.
Pauta Brasil: Para os advogados que desejam se destacar profissionalmente, qual é a importância de se especializar em mediação e participar ativamente de uma comissão temática como a da ABA?
Dr.ª Catharina: A especialização em mediação representa uma oportunidade estratégica para o advogado contemporâneo. O mercado jurídico está em transformação e exige profissionais capazes de oferecer soluções mais amplas e sofisticadas para a gestão de conflitos. Participar de uma comissão temática, como a Comissão Nacional de Mediação da ABA, permite ao advogado integrar uma rede de profissionais comprometidos com inovação, atualização constante e construção coletiva de conhecimento. Além disso, proporciona visibilidade institucional, intercâmbio de experiências e oportunidades concretas de desenvolvimento profissional. A advocacia do futuro será cada vez mais multidisciplinar, colaborativa e orientada à pacificação social.

