O racismo que insiste em entrar em campo
O caso de Vinícius Júnior não é sobre futebol. É sobre humanidade.

Por Dane Navarro
O futebol deveria ser o espaço onde talento fala mais alto. Onde a habilidade vence. Onde a emoção une. Mas, mais uma vez, o mundo assistiu a uma cena que revela que nem sempre o espetáculo é apenas esportivo.
O novo episódio envolvendo Vinícius Júnior, atacante do Real Madrid, reacendeu um debate que jamais deveria sair da agenda pública: o racismo estrutural no esporte.
E a pergunta que fica não é apenas o que aconteceu.
É por que continua acontecendo.
Quando a ignorância tenta deslegitimar o talento
Vinícius Júnior é um dos jogadores mais decisivos da atualidade. Jovem, brilhante, protagonista em competições internacionais. Seu crescimento técnico é evidente. Mas, paralelamente ao reconhecimento mundial, ele tem sido alvo recorrente de ataques racistas.
Não é coincidência que os ataques surjam justamente quando o atleta se destaca.
O racismo, em muitos casos, é a reação primitiva à excelência. É a tentativa de reduzir o outro quando não se consegue superá-lo.
Essa lógica ultrapassa o esporte. Ela revela uma mentalidade ainda presente em parcelas da sociedade que insistem em defender, de forma explícita ou velada, uma suposta hierarquia racial.
O silêncio das punições brandas
Casos anteriores já mobilizaram entidades como a UEFA e federações nacionais. Protocolos são acionados. Investigações são abertas. Notas são publicadas.
Mas a pergunta central permanece: as punições têm sido suficientes para mudar comportamentos?
Enquanto sanções forem simbólicas, o problema continuará sendo tratado como exceção — quando, na verdade, é estrutural.
O racismo não é falha momentânea. É crime.
A advocacia como voz institucional
A Associação Brasileira de Advogados manifestou preocupação com o episódio, destacando que o combate ao racismo não pode depender apenas da indignação pública.
O presidente da entidade, Esdras Dantas de Souza, afirmou:
“O racismo fere a dignidade humana e compromete o próprio ideal democrático. Quando o esporte tolera atitudes discriminatórias, transmite uma mensagem perigosa às novas gerações. É necessário rigor institucional, punição exemplar e compromisso educativo permanente.”
A fala reforça um ponto central: o enfrentamento precisa ser jurídico, institucional e pedagógico.
O que precisa mudar
Especialistas defendem medidas mais efetivas:
- Suspensões longas para atletas envolvidos em atos racistas
- Multas proporcionais ao impacto do evento
- Responsabilização de clubes em casos de omissão
- Programas obrigatórios de formação antirracista
- Agravamento das penas em casos de reincidência
Sem consequências reais, o ciclo se repete.
O que está em jogo
O futebol é uma das maiores vitrines culturais do planeta. Milhões de jovens assistem, acompanham, se inspiram.
Quando o preconceito aparece sem resposta firme, ele não apenas humilha um atleta — ele educa negativamente uma geração.
O racismo compromete a humanidade porque reduz o outro à cor da pele, ignora sua história, seu esforço e sua dignidade. Ele nasce da ignorância, mas sobrevive pela tolerância institucional.
Um chamado à maturidade coletiva
O caso de Vinícius Júnior não pode ser tratado como episódio isolado. Ele precisa servir como divisor de águas.
O esporte tem poder de transformação social. Pode escolher ser palco de repetição histórica ou instrumento de evolução cultural.
A sociedade já deixou claro que não aceita mais o racismo como parte do jogo.
Agora é hora de as instituições demonstrarem que também não aceitam.
Porque, no fim, o que está em campo não é apenas uma bola.
É a própria consciência coletiva.



